O PseudoAutor

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Baiano nascido numa tarde de julho de 1991. Agnóstico e hipster, estudante de História, apaixonado por simbologias, mitologias e animais pré-históricos.

Escreve amadoramente desde 2007; após alguns anos e quase trinta livros rascunhados, Alec publicou uma coletânea de histórias curtas (Zarak, o Monstrinho, Multifoco, 2011), um conto numa antologia sobre répteis cuspidores de fogo (Dragões, Draco, 2013) e um romance autobiográfico fantástico (A Guerra dos Criativos, independente, 2013), além de algumas obras virtuais na Amazon.

Atualmente se divide em pesquisas para projetos literários e coordenação editorial de um selo independente.

Visitas

Conto: O Selo do Ogro (Alastair Dias)



O corpo fora arremessado para longe, contra um caminhão de pequeno porte que se sacudiu todo, quase tombando. Mal se chocou com o veículo, o homem, cujas vestes eram negras e os cabelos alvos e com mechas prateadas, fora agarrado e pressionado contra o asfalto, sob toneladas de pressão de uma mão enorme e que ora o socava, ora o apertava com força. Em seguida sentira o corpo voar rumo ao ponto de início da batalha, rolando como um boneco molengo, sem movimentos próprios. Inacreditavelmente, pôs-se de pé, o sangue escorrendo em abundância pelo rosto, o sorriso cínico inalterável.
— Boa merda de mago você é, Cardoso! — queixou-se, voltando para o homem que tentava conjurar alguma coisa na parede coberta de símbolos de um antigo prédio colonial. — Vai esperar o infeliz me devolver ao Inferno primeiro, é?
Cardoso não revidara. Sabia que o companheiro de luta aguentaria o tempo que fosse preciso. Um ogro como aquele não o venceria tão facilmente. E ainda assim, o monstro não era lá tão grande: apenas uns três e meio a quatro metros de altura. O matador daria conta dele; não havia com o que se preocupar.
O homem ferido se voltou para a besta a sua frente, que urrava ensandecida, amassando um carro com a força violenta dos punhos. Arfou. Odiava ogros, sobretudo aqueles que teimavam em não se extinguirem, sobrevivendo sob os Selos, como os demônios, até uma criança desavisada o trazer de volta. Se não fosse a dívida para com o amigo — além da tentadora quantia oferecida a ambos —, nem se daria ao trabalho de apanhar de uma criatura tão imbecil como aquela.
Sacou uma pistola negra e apontou para o pé da coisa, atirando. O tiro acertou o asfalto, a poucos centímetros do dedão do pé esquerdo, arrancando lascas e provocando faíscas.
— Não o acerte! — vociferou o mago, voltando-se para o atirador, entre o susto e a ira.
— Eu não o quis acertar, certo? E quer parar de parecer minha mãe e acabar logo com isso? — irritou-se o homem, lançando seu olhar prateado e glacial para o outro, demonstrando que sabia muito bem o que poderia ou não fazer naquele caso específico.
Enquanto Cardoso se voltava para o encantamento, o matador sentiu novamente o corpo ser levado ao alto e uma mão esbofeteá-lo com extrema força, lançando-o diretamente contra um monte de lixo. A dor foi imensa, mas o odor podre o fizera se preocupar em sair logo dali, ajeitando com a mão livre a sobrecapa preta. Como gostaria de matar logo aquela coisa e pôr fim àquela sessão nada agradável de espancamento gratuito. Cuspiu saliva misturada ao sangue, percebendo que perdera outra vez o dente canino direito.
— Merda! Ainda bem que não sou um vampiro — disse a si mesmo, tocando o indicador no espaço vazio.
Seu olhar se mantinha no mago, que principiava a reposicionar os signos do Selo. Nunca se interessara por conjurações, mesmo quando servia a Satanael. Aprendera uma coisa ou outra, o que achou básico e fundamental, como falar com espectros, ser poliglota, conhecer os segredos de destruição de todas as criaturas — aprendizado que lhe rendeu um feito invejável contra os filhos do Senhor do Inferno —, além de poder vislumbrar, quando necessário, o Véu.
Andou calmamente, mancando um pouco, rumo ao ogro, cantarolando uma cantiga de ninar. Trocou de arma, pegando uma de choque. Mudou a intensidade da descarga para a máxima.
— Ele disse para não matar — argumentou para si, convencendo-se —, não disse nada de não dar alguma para acalmar.
O monstro naquele momento balbuciava diante de uma loja de brinquedos.
— Ô coisinha linda! — gritou o caçador, provocativo e sarcástico. — Olha o que tenho para você!
Quando a criatura se virou, o corpo um pouco curvado, tudo o que viu foi o homem pular sobre ela e tocá-la com um objeto que descarregou uma potência elétrica de milhares de volts. Urrou ensurdecedoramente, agarrando o atacante pela cabeça e o lançando para longe, para cima de um carro já destruído.
— Anda logo com essa porra, Cardoso! — berrou o sujeito de longos cabelos alvos e prateados, sentando-se no destroço do que fora um automóvel.
O mago aumentou o tom de voz e o ritmo do cântico, adquirindo uma postura digna de sua sabedoria — que contrastava com sua calça jeans surrada, camisa de mangas longas e tênis —, movendo com os dedos os símbolos rúnicos pela parede do prédio, reposicionando-os de forma a criar o efeito oposto ao original, capturando outra vez a criatura que nela residia. Os gritos de reclamações do outro eram totalmente ignorados.
O ogro avançou contra o matador, com grande fúria, agarrando o que encontrasse pelo caminho e lançando para longe. Estava furioso demais com aquele homem. E o mataria se não fosse algo lhe puxando para a parede. Desesperou-se, tentando se agarrar a algo. Achou um poste, porém aquele sujeito incômodo surgiu e lhe aplicou outra descarga elétrica, fazendo-o soltar a haste. Mas não iria retornar para o abismo escuro sozinho; agarrou o homem com força.
Os dois foram arrastados para a parede, o monstro se desfazendo igual areia arrastada pelo vento de um deserto. O caçador tentou se livrar, obtendo pouco resultado no começo, mas logo obtendo êxito conforme o corpanzil da besta se reduzia a pó. Foi com certo espanto que viu surgir um corpo pequeno.
— Will, a criança! — exclamou Cardoso, demonstrando preocupação, apontando para o menino inconsciente que agora era visível.
O matador se deixou ser puxado com mais intensidade, tendo a chance de agarrar a criança. Em seguida esticou a mão para o mago, que a agarrou e o puxou para fora da espiral que terminava de sugar o monstro. Segundos depois ele ouviu o Selo sendo outra vez fechado. Olhou para o menino que salvara — e que acidentalmente libertara o ogro e teve seu corpo frágil tomado como hospedeiro.
— Tome-o! — exclamou o homem de cabelos brancos, estendendo o garoto ao mago.
A seguir foi até um carro preto, abrindo o porta-malas com certa violência. Pegou alguns objetos cilíndricos, reclamando alguma coisa sobre o monstro selado, o mago ruivo, o menino tolo e a humilhação que sofrera. Quando concluiu a montagem, carregou a arma e se voltou para o prédio velho e abandonado, gritando com ferocidade:
— Saia daí ou vai junto com esse ogro desgraçado para o Inferno!
Na manhã seguinte, enquanto uma criança dormia um pouco cansada, uma mãe aliviada pelo retorno do filho querido, trazido por dois homens, a quem pagara uma boa quantia como forma de gratidão, assistia assombrada a notícia do vandalismo no centro cultural da cidade, onde um prédio — que se tornaria patrimônio público — fora destruído por uma grande quantidade de explosivos.
— Com certeza algum idiota sem cultura — reclamou ela, pensando que o mundo estava mesmo perdido com gente daquele tipo.

Poesia: 10 de Setembro (Alécio Silva)



Minha alma sofre com a triste partida
Daquela que um dia foi para mim
Todo o motivo sincero de meu viver,
A quem entreguei meus sonhos a bel-prazer
E fiz juras de um amor que deixei morrer.

Meus olhos não mais a encontram junto a mim,
E estão completamente perdidos no horizonte
O qual um dia a viram partir,
E o choro que surgiu em mim a partir
De sua partida nunca mais me fez sorrir.

Meu coração tão infeliz sofre
Por ter quem eu amava ir para não mais voltar,
Não mais sentir sua pele tão delicada,
Ouvir a sua voz serena de fada,
Amargurando meu sono pela madrugada.

E aqui fiquei, enquanto a via indo,
Seguindo sua vida sem olhar para trás;
Hoje ela está ao lado de quem a faz feliz,
E eu, que a amei e tão bem a quis,
Esquecido fiquei, a alma com horrenda cicatriz.

Meus desenhos #1: Árvore e Lua



Não desenho muito bem, mas teve uma época em que eu era melhor. Fui aprendendo com uma colega, no longínquo ano de 2001. Era legal aprender lições sobre textura, sombra, perspectiva e tantas outras coisas com alguém com menos idade do que eu.

E fiz este desenho no começo deste ano que se encerra. Nem sei o motivo; tava sem fazer nada e resolvi desenhar; usei lápis comuns, desses que todo mundo usa e fui rabiscando prá lá e prá cá, uma borracha que perdi em algum lugar, em algum momento entre outubro e dezembro.

Lembro-me de estar triste, muito triste, e querer desabafar; então, olhei para uma árvore próxima e me pus a desenhar.

Acabou que fiz uma árvore sobre um monte de terra, sem folhas, morta, e atrás um luar cheio e próximo. Gostei do resultado final, gostei mesmo.

Antologias: Se7e Visões - Ambição


Faz um bom tempo que queria falar sobre esta antologia que tive o prazer de organizar e participar, na qual reuni seis amigos escritores para falarmos sobre a ambição.

Antes de tudo, o Projeto Se7e Visões é uma ideia totalmente independente, gratuita e sem fins lucrativos. É apenas uma reunião de autores, de diferentes gêneros, que escrevem sobre um tema apenas, mas livres para povoarem suas histórias com vampiros, extraterrestres, unicórnios, serpentes monstruosas, cavaleiros, deuses, necromantes e tudo mais o que a mente criativa for capaz de criar.

No primeiro volume, Se7e Visões - Ambição, reuni Alfer Medeiros (Fúria Lupina e Livraria Limítrofe), Diego Alves (Detentores da Morte), Isaac Guedes, Tracy Anne, Mary Aline e Eduardo Oliveira para juntos contarmos as facetas ambiciosas do ser humano. Resultado: cada um fez um conto sensacional e de quebra criamos juntos um oitavo conto, que possui três finais possíveis.

Em ordem de apresentação na obra, os títulos dos contos presentes no primeiro volume e um trechinho para dar curiosidade.

Suor e Sangue (Diego Alves)

Eriot acreditou que o choque da batalha o havia deixado louco.
 ― Sou Andressa, deusa do vento e da brisa, do orvalho da manhã, e me compadeci de ti, destemido cavaleiro, e sei como conseguir a paz que teu coração tanto anseia. Precisas sentir o descanso eterno daqueles que pela honra merecem. Quero que durmas tranquilo em minha suave maresia...
 ― Se realmente é uma deusa, prove ressuscitando a todos que aqui estão! ― desafiou ele a sua própria razão.
 ― Não posso trazer os mortos de volta, querido cavaleiro, mas vejo que também se te levar comigo com todo esse ódio no seu coração, minhas delicadas carícias não te aquietarão e em minha casa tu não conseguirás descansar.
Falando isso, o vento ficou ainda mais forte, e o sopro fez com que todo o sangue e os corpos daquele lugar se transformassem num bosque de mil árvores.
 ― Proteja este bosque! Não deixes que o rei o derrube! Eu te darei a força necessária para isso! Não duvides da paz que ele trará, mesmo que ela seja tardia. Pois a recompensa vem para aqueles que lutam por seus objetivos.
 ― Sim, farei isso...
Eriot se levantou, cravou sua espada no chão.



O Chifre do Unicórnio (Alec Silva)

O corpo pequeno do ser selvagem aconchegou-se ao da donzela, aninhando-se completamente nos seus braços. Tudo o que ele queria era obter algum carinho e beijar os seios firmes da jovem, sentir seu desejo natural ser saciado outra vez.
A camponesa emocionou-se por ter nos braços um animal tão belo e raro, que em breve seria sacrificado para saciar a ambição de um caçador. Ela poderia espantá-lo, mas precisava da recompensa para impedir a execução do pai, pois este contraíra uma dívida numa taverna e o valor devia ser coberto pela sua morte ou pelo seu pagamento imediato.
Sabendo que o destino do animal se aproximava, a jovem afagou a criatura dourada enquanto sentia os lábios equinos chuparem-lhe o mamilo esquerdo e a pele do seio, numa sucção tanto gentil quanto forte, prazerosa e dolorosa.
Os olhos esmeralda do animal sagrado cerraram-se, entregando-se ao prazer sublime de beijar tão belo peito virgem. Era o sono da paz, o prólogo da morte que espreitava num enorme galho, da árvore mais alta daquela floresta.



Vampiros Existem? (Mary Aline)

Observei o homem.  Ele era tão magro que seria facilmente confundido com um poste se ficasse ao lado de um.
― Certo. Interessante. O que isso significa?
― Ele é um vampiro.
― Sério?! Não me lembro de lendas dizendo que vampiros possuem um grande apetite sexual.
― Samantha... Você não entende. Meretrizes são perfeitas para vampiros. Quem sentiria falta delas? Muitas nem possuem família! É fácil matar, sugar o sangue. Ninguém saberia quem foi o culpado.
― Mas outras meretrizes sentiriam falta, não? Talvez a dona da casa também? Ou, então, o padeiro?
― Padeiro?!
― Elas comem pão, não comem?



Deus da Morte (Tracy Anne)

Aquele era o melhor lugar para pôr meu plano a cabo as catacumbas de Paris. Era até estranho saber que embaixo daquela cidade, nos túneis que séculos atrás eram usados para a exploração das pedreiras, havia algo tão sombrio quanto criptas com os ossos de milhões de pessoas (ossos esses que estavam dispostos pelas paredes dos corredores de forma macabramente artística). Os que eram longos e mais regulares formavam uma parte da parede adornada por crânios, e, por trás dessa muralha, os ossos menores e com menos constância de forma. Aquele lugar provava que os humanos, mesmo que não admitissem, viam beleza na morte.
Os túneis, somente por sua finalidade, já eram assustadores. A luminária a óleo, que eu carregava em uma das mãos, clareava alguns metros à frente e atrás. Além daquele pequeno pedaço visível, só havia escuridão. O que me dava a claustrofóbica impressão de que eu estava em perigo.
Respirei vagarosamente, numa tentativa de me acalmar. Coloquei a luminária no chão e estendi um pedaço de pano branco que eu carregava. No tecido, eu havia desenhado um diagrama contendo ideias de quase todas as teorias que eu já havia pesquisado. Eu iria testar uma magia que invocaria muitos espíritos ao mesmo tempo, usando partes de corpos os ossos antigos demais para serem usados na necromancia tradicional.
Eu tinha fé de que daria certo, pois usaria os mesmos princípios de combinação dos antigos para criar todas as magias existentes.
Sim, daria certo. Tinha que dar certo.



A Ilha das Ambições (Isaac Guedes)




Os sete estavam felizes, porque haviam encontrado o que procuravam, havia ouro suficiente para todos. Então apareceu diante deles um senhor de cabelos brancos que disse:
   ― Aqui tenho sete pequenos alforjes de ouro, com uma coisa muito valiosa dentro. 
Estou dando para vocês dividirem entre si, com a condição de deixarem todo esse ouro aí embaixo, e então saírem são e salvos daqui. Vocês é que decidem. Se caso decidirem ficar com um pequeno alforje cada um, poderão voltar para casa, mas se decidirem que querem mais e adentrar no abismo para pegar o ouro, pode ter certeza que nunca sairão  dessa ilha. A escolha é de vocês!
Dito isso desapareceu, deixando sete pequenos alforjes.
Era uma escolha muito difícil...



God Jul (Eduardo Oliveira)

Kär levantou o rosto, furioso.
Não! O problema é que eu não ganhei presente algum! gritou, fazendo seu rosto ficar vermelho de ódio. Nem o que eu queria, nem qualquer outro!
Os duendes continuavam andando, despreocupados.
Papai Noel riu.
Você está dizendo, então, que veio até aqui para reclamar um presente não-recebido? perguntou, com naturalidade.



O Evento Tunguska (Alfer Medeiros)

Caminhando enquanto retirava um pequeno objeto de um de seus bolsos, o alienígena digitou alguns comandos rápidos e efetuou a leitura do aparelho. Recebeu a informação de que a única forma de vida animal em atividade ali estava bem próxima, e prestes a ficar frente a frente com ele.
Quando o curioso caçador irrompeu pela trilha aberta pela queda da nave, a dez metros de distância, os dois pararam completamente.
Seres de galáxias completamente diferentes se encararam, atônitos. Estranheza, medo, fascinação e curiosidade rodopiavam entre eles, como um imenso redemoinho tragando duas frágeis embarcações, em meio a um oceano escuro e ameaçador. O homem decidiu utilizar a única comunicação universal que conhecia: a violência. Rapidamente, puxou uma flecha da algibeira e com ela retesou a corda do arco, com o máximo de força que conseguiu imprimir ao instrumento.



Pai e Filho (Alec Silva, Alfer Medeiros, Diego Alves, Eduardo Oliveira, Isaac Guedes, Mary Aline e Tracy Anny)

Enfim, chegamos ao oitavo conto, no qual os sete escritores irão unir histórias tão distintas num único evento.

A ordem dos contos comanda a ordem que cada autor deu a sua contribuição para que este conto pudesse ser agora lido por você, caro leitor.



Além dessa ótima equipe, o primeiro volume contou com o prefácio de Eric Musashi (Os Herdeiros dos Titãs), além de integrar o Projeto Livros Grátis, de meu amigo Rochett Tavares, que disponibiliza e-books para baixar.

Enfim, para quem quiser conferir esta antologia que me orgulha tanto, é só ler no Bookess ou baixar.

E aguardem, pois em breve teremos notícias sobre os próximos volumes!

Spin-Off de "Fúria Lupina": "Entre Cães e Lobos" - Parte I (Alastair Dias)

Há algum tempo, meu amigo Alfer Medeiros, autor da série de horror Fúria Lupina e da de fantasia Livaria Limítrofe, fez um convite para integrar a antologia virtual Green Death - Ecoterrorismo Licantrópico Vol. 0, que seria uma reunião de contos que serviriam de spinoff (ou seria spin-off) para um grupo ecoterrorista formado por lobisomens.

A ideia gerou alguns contos, inclusive Um Cão Nunca Será um Lobo, elogiado por uns por trazer ao mundo uma criatura diferente (e que fazia parte de uma ideia antiga, que ainda não se concretizou como queria).

E Entre Cães e Lobos é uma reunião de contos diversos e interligados, que apresento a partir de hoje a vocês.



- Diana -


“O homem é o lobo do homem”.
(Thomas Hobbes)


O enorme homem-cão ergueu-se, encarando-me com extrema frieza, fazendo o meu sangue gelar — algo que eu, que fora criada como uma alfa, nunca sentira antes diante de qualquer criatura, sobretudo uma de minha raça, o que não era o caso dele. Ele ainda salivava avermelhado, tão abundante que me fez sentir pena daquele guarda que matara.
Respirei fundo e firmemente, tentando mostrar-me capaz de enfrentá-lo, porém ele deve ter notado, pois soltara um ruído gutural de zombaria e voltara ao seu objetivo.
Estranhamente recapitulei os passos que me levaram a estar ali, com aquele ser cuja natureza eu nunca imaginei ser possível existir no mundo.
Ö
Eu acabava de retornar de minha missão na China quando Loki me parou no corredor e perguntou-me:
— Você soube sobre os ataques a canis que ocorreram no Brasil desde 1990?
— Hein?! — estranhei, afinal nunca parei para ler os jornais ou ver televisão desde que meus pais morreram.
— Tem um homem-lobo ou algo do gênero matando gente e liberando a cachorrada lá no Brasil.
— E o que é que tem?
Não entendi o motivo daquilo, pois havia células do Green Death no país.
— Você não compreende, não é? — inquiriu-me ele, franzindo o cenho castanho.
— Compreender o quê? — retruquei, antes de bocejar.
— A missão na China afetou a sua mente, foi?
Na verdade, sim, mas achei melhor não aprofundar-me no assunto.
— Ninguém lá no Brasil está atacando os canis com autorização da sede — explicou Loki, com um tom didático. — E você sabe que é proibido revelarmos a nossa existência, não?
— Claro que sei, oras!
— Seja lá quem ou o que estiver fazendo isso, não está nem aí para que seja público a nossa existência. Vi uns vídeos no Youtube que mostram o maldito esquartejando guardas num canil em São Paulo. Se não fosse a influência de nossos patrocinadores, teríamos sérios problemas na televisão.
— Recebi um spam sobre algo parecido semana passada, mas ignorei. Achei que era bobagem de jovens virgens que não têm o que fazer da vida.
— O pessoal da sede não, por isso enviou um ­e-mail top secret para mim, exigindo que designasse meu melhor agente para ir ao Rio de Janeiro investigar e recrutar o desgraçado.
— Não somos a Alcateia Global para fazer isso.
— Sei. E a própria também se mostra interessada em saber mais sobre esses ataques; já enviou um agente para lá, pedindo a execução, se necessário, do cara.
— Por que não o deixamos fazer isso?
— Pense, Diana! Pense!
Eu detestava quando Loki falava comigo como se ainda fosse aquela menina que ele treinara há anos. Agora eu era adulta, umas das melhores agentes de todo o Green Death.
— Quer parar de me tratar como se eu ainda fosse uma criança? — zanguei-me.
— Não estou fazendo isso, pode ter certeza.
— Mas é o que está parecendo.
A ausência de uma boa noite de sono havia me feito ficar irritadiça.
— A Alcateia Global não apoia nossas ações — falou-me, sério. — E nos enviou e-mails sobre os ataques, solicitando explicações e ameaçando matar o responsável por tantas barbáries e por ameaçar nos revelar aos humanos. A sede, portanto, quer saber quem é o responsável e tentar recrutá-lo antes.
— Se ele está ameaçando nos revelar, por que raios recrutá-lo?
— Veja isto!
Peguei um envelope pardo e abri-o, retirando algumas folhas impressas — os ­e-mails vindos da Holanda — e fotos retiradas da Internet. Olhei tudo de relance, concentrando-me apenas numa foto em especial.
— Deus! — exclamei.
— Compreende agora? — indagou-me, sorrindo.
— Que tipo de homem-lobo é...?
— Não é um homem-lobo catalogado.
— Uma nova raça?! — assombrei-me, fitando-o.
— Lembra-se da equipe de Berserkr, aquela que foi para a Amazônia em 2009?
— Sim. Foi um fiasco, aliás.
— Não totalmente.
Loki tinha conhecimento privilegiado sobre todas as ações ocorridas pelo mundo. Era tão influente e poderoso que servia de intermediário entre inúmeros grupos e facções, porém era local a nossa causa.
— Foi catalogado um homem-lobo-guará, uma espécie que há quem considere como um “messias” — continuou ele —, alguém que irá unir as raças e fazer algo grandioso.
— Isso soa meio como um jogo de nerds.
Ele riu de minha piada.
— Quando devo partir? — perguntei, afinal aquela missão seria minha, pois ele nunca falava tanto sobre um top secret a não ser que fosse para ser executado pelo ouvinte.
— Daqui dez minutos. No helicóptero receberá instruções sobre um canil acusado pelas autoridades locais de realizar crimes hediondos contra cães e gatos.
— Detesto gatos!
— Nosso objetivo também — disse Loki, apontando-me uma fotografia na qual era possível ver inúmeros felinos estraçalhados.
Ö
Após um merecido e curto descanso, resolvi ler os arquivos que Loki me passara, intrigando-me a cada informação lida.
Segundo os relatórios, eu devia localizar um homem-cão que tinha a aparência de um rottweiler e matava homens e gatos (admito que esta parte muito me agradou, embora tais coisas felpudas também façam parte da natureza que fui treinada a defender a qualquer custo), libertando apenas os cachorros. Não era o estilo de o Green Death fazer crueldades contra animais, mesmo que sejam gatos, bichos tão sem graça.
Quando o avião pousou, guardei o envelope e preparei-me para um processo rotineiro em todas as minhas missões: pegas as bagagens, arrumar um táxi, hospedar-me num local o mais afastado possível da cidade e aguardar o momento de agir.
Era próximo das nove horas da noite quando saí para a vigilância no canil.
A primeira noite se mostrou cansativa, porém me permitiu observar a crueldade do homem para com os animais. O que eu vi é tão horrível que nem ouso descrever, mas me fez sentir-me orgulhosa por estar numa organização determinada a enfrentar e combater de alguma maneira tudo isso.
Antes do nascer do sol, parti, afinal meu objetivo preferia atacar entre as dez da noite e as três da madrugada.
Repeti a ação mais duas noites consecutivas, começando a praguejar não só contra Loki e o homem-cão, mas também a mim, que aceitei sem hesitar uma missão tão imbecil e parecida com as feitas pela Alcateia Global.
De repente, na terceira noite, meus sentidos avisaram-me sobre algum movimento anormal. Mal tive tempo de pensar direito, pois um vulto colossal pulou a janela do andar baixo do prédio, agarrando-se a grade e puxando-a com extrema força; a seguir lançou-a em minha direção, que me desviei a tempo de evitar ser ferida.
Assim que entrou o lugar, agarrou a cabeça de um homem que avançava o corredor para saber o que havia ocorrido. Não vi o que ele fizera com o infeliz, mas pude ouvir gritos de dor, latidos raivosos e tiros. Com certeza o bicho estava pegando lá dentro.
Apressei-me a agir, pois queria acabar o quanto antes com aquela missão tão anormal para uma mulher-lobo alfa membro do Green Death.
Segui o rastro de sangue, vísceras e cadáveres, ora ou outra tendo que concluir o que a criatura canina começara — sem testemunhas era umas das regras que nos ensinaram durante os treinamentos.
Não demorou muito para que eu o visse devorando o crânio de um guarda.
Pelos curtos, em tons castanhos e negros, porte musculoso, muito acima do comum a um homem-lobo, mais de dois metros de altura, crânio enorme, pescoço curto, aparência realmente assustadora até mesmo para mim, que me acostumara a ver meus colegas malhados da Rússia e da Alemanha.
Após me notar, ele seguiu em sua tarefa, ignorando-me completamente.
“Espere!”, pedi, tentando um vínculo metal.
Foi inútil. Algum bloqueio poderoso em sua mente me repelia. Era como gritar num lugar vazio e ouvir o eco de minha voz.
O jeito foi segui-lo, tentar um contato físico e torcer para não ser mal interpretada.
Enquanto o seguia, notei uma firmeza anormal para alguém numa missão — era isso que ele fazia ali, independente a causa que o motivava —, pois mantinha uma calma nos passos e nas ações, embora os guardas que o avistassem não parassem de atirar.
A forma de matar adotada por ele me impressionava: torcer o pescoço, degolar, decapitar, perfurar o peito, esmagar a cabeça, tudo baseado em algum fundamento médico ou cientifico — talvez experiências com licantropos, em algum sentido —, tudo lhe exigindo o mínimo esforço.
Que tipo de besta a natureza havia criado ao conceber aquele homem-cão?
Por fim, após um massacre que durou quase cinco minutos, chegamos ao ponto em que estavam os cães e os malditos gatos. Os primeiros abanaram os rabos, parecendo verem alguém muito querido, mas os outros arrepiaram os pelos e abriram as bocas, soltando um som gutural muito rouco, amedrontados.
Lentamente ele foi soltando os cachorros sob meu olhar surpreso. Aqueles animais o reverenciavam. Melhor, pareciam adorá-lo como um deus!
Um dos animais canídeos veio até mim, abanando o rabo pelado. Reparei que era caolho, desprovido de pelos também no focinho, no qual pude ver uma horrível cicatriz ainda em processo de cicatrização. Condoí-me com aquilo.
A maldade humana não possuía limites.
Quando voltei à realidade, o homem-cão estava em minha frente, fitando-me. Pensei em recuar, mas uma frase proferida por ele fez-me hesitar devido ao espanto.
A natureza licantrópica impossibilita um homem-lobo na fase animalesca falar, contudo ele conseguiu pronunciar uma frase com certa clareza. Aquilo era um absurdo!
“Quem é você?”, perguntei, surpresa.
— Licurgo.
“O que é você?”
— Um abençoado, eu acho.
Havia um enorme orgulho em sua voz grave, algo que revelava muita prepotência e frieza.
— E você? — inquiriu-me. — É um lobisomem, certo?
“Sou Diana”, respondi, abaixando a guarda, “e não gosto de ser chamada assim!”
Na verdade, ninguém de minha raça gosta desse termo pejorativo.
— Veio me matar também?
“Também?!”
— Há anos tentam me matar. Tentaram hoje, antes de eu vir para cá.
Pensei no mesmo instante no agente enviado pela Alcateia Global.
“Você o matou?”
— Não mato lobos e cães.
“Quero recrutá-lo para o Green Death.”
— Outros tentaram. Acabaram, por fim, tentando me matar.
“E o que você fez com eles?”
Não houve tempo para uma resposta, pois senti garras arranharem minhas costas e meu corpo ser arremessado sobre uma jaula.
Praguejei devido a dor do impacto e a minha distração, afinal não notara a aproximação de um homem-lobo. Ergui primeiro o olhar, furiosa, testemunhando Licurgo atracar-se com meu agressor, que inicialmente almejou ataques em sua garganta; a seguir aquele colosso canino conseguiu chutar violentamente o queixo do outro, atordoando-o o tempo necessário para agarrá-lo pelo queixo.
Eu me colocava em pé quando vi o homem-cão segurar os maxilares do agente da Alcateia e forçá-lo a abrir a boca. O licantropo se debatia e arranhava o que podia do oponente, desesperado, tentando se livrar do ataque. Não obteve nem um milésimo do efeito desejado.
Talvez tomado pela fúria, o ser canino usou mais força para arregaçar a bocarra do outro, que uivou alto — ainda pude ouvir o estalo de seus ossos se deslocando. Mal o fez, agarrou-o pelo pescoço e pelo cóccix, elevando-o um pouco acima o peito, o que era o suficiente para aplicar uma joelhada violenta em seu tórax, fazendo-o cuspir sangue em abundância.
Depois de largar o corpo inerte — porém ainda vivo — do meu atacante, aquela criatura aproximou-se de mim, indagando:
— Ele a machucou muito?
Meneei a cabeça negativamente. Havia sido apenas alguns arranhões, nada que a minha capacidade de regeneração não desse conta.
A sua mão enorme — maior do que a de um homem-lobo — tocou a minha cabeça, afagando-me carinhosamente.
“Temos que ir embora”, avisei, embora o seu afago fosse um convite a permanecer ali por horas.
— Daqui a pouco — sussurrou ele, apesar da voz ainda soar grave.
Licurgo voltou-se para o agente da Alcateia, que agora retornava à forma humana, agonizando. Andou calmamente até ele, sobre as duas patas traseiras, e agarrou-o pelo pescoço, provavelmente cravando as garras com força em sua carne, pois notei o sangue gotejar pelo chão. A seguir ergueu o corpo nu do pobre coitado até o ventilador que girava freneticamente no teto.
Uma chuva de cabelos, ossos e miolos misturados a sangue espalhou-se pelo lugar, atiçando os cães e os gatos — e causando-me assombro.
“Por que o matou?”, indaguei, quase catatônica, quando ele largou o corpo decapitado e se aproximava de mim.
— Só mato homens.
Não entendi a lógica daquele raciocínio, entretanto não me aprofundei no assunto.
— Vamos!
Segui-o, totalmente envolvida por aquele ser canino tão enigmático.
Percorremos uma distância imensurável até uma clareira, onde Licurgo parou de correr e virou-se para mim, ainda sobre as quatro patas, fazendo-me parar bruscamente.
— Diana... você é linda...
“O quê?!”
Aquilo me pegou desprevenida. Que tipo de criatura era aquela, afinal?
Ele agarrou-me pelos ombros, enquanto se colocava bípede. Em seguida transmutou-se na forma humana, ficando com um metro e oitenta de altura.
Era bonito e muito sarado, pele morena, careca, olhos castanho-avermelhados e aparência rústica. Apesar de estar como um humano, ele tinha ainda uma grande força no toque.
Não sei o motivo exato, mas também assumi a forma humana. Mal o fiz e senti um beijo intenso seguido de um abraço firme.
Ö
Loki olhou-me com grande frieza.
— Você me decepcionou.
Eu nada disse. Tudo o que fiz foi abaixar o olhar e deixar as lágrimas caírem. Havia falhado em minha missão de recrutar Licurgo.
— Por sorte nos trouxe o DNA dele — acrescentou, num tom vitorioso.
Ergui a cabeça, confusa.
— Há anos tentamos encontrá-lo para estudarmos seus genes — continuou ele, alisando os cabelos negros —, e você agora tem um filho dele aí em seu ventre.
“Como?!”
— Estamos monitorando-a desde a sua viagem para o Brasil, Diana. Seus hormônios se alteraram.
— Por que o Green Death faria isso? — perguntei, surpresa e muito confusa.
— E quem disse que eu só atuo para o Green Death?
Antes que eu pudesse esboçar qualquer reação, alguns dardos soporíferos — que eu não sei de onde vieram — foram atirados em minhas costas, fazendo-me adormecer profundamente.
Ö
Ser mãe nunca estava em meus projetos. É uma dádiva gerar vida, é claro, mas para mim seria o fim de minhas aventuras pelo mundo. E ser a portadora de uma cobaia só me fazia sofrer ainda mais.
Durante os meses que se passaram tudo o que me sucedeu foi testes e mais testes. A dor. A agonia. A ânsia de morrer, de abortar. O desespero. Sempre me perguntei por onde andava Licurgo. Teria se envolvido por outra mulher-lobo? Teria achado alguém mais de sua raça?
Mas isso já não importa mais, afinal estou perto da morte.
Agora que já dei a luz, eu sei, sou descartável.
Ainda lutarei pela minha vida e pela a do meu filho.
Aos que lerem estas folhas que com muito custo consegui, se alguém um dia as ler, que meu nome seja lembrado, e que tanto aquele homem-cão que amei e que me deu um filho quanto o fruto desse rápido e fulminante amor saibam que não deixarei que minha morte seja em vão, afinal sou Diana, uma representante da Green Death, uma mulher-lobo alfa e também uma mãe.
E Licurgo, se você hoje estiver lendo isso, por favor, proteja nosso filho da influência dos Lobos e ame-o como ama seus companheiros caninos!
É chegada a hora de lutar até a morte...
Ö
Os olhos castanho-avermelhados encheram-se de lágrimas. Havia fúria, muita fúria neles, um sentimento que inúmeras vezes o dominara. Porém agora era diferente, era mais amargo, mas doloroso, mas desesperador.
Loki não sabia, mas havia cometido quatro erros fatais: corrompera uma causa justa, a luta pela natureza, algo que o homem-cão achava interessante no Green Death, embora nunca pensasse em fazer parte; tentara recrutá-lo para fins obscuros e indignos, desejando seu DNA para sei lá o que; matara a única parte humana que ele amara na vida, a mulher-lobo que lhe dera um filho; e havia afastado um pai de um filho.
O homem-lobo corrupto não conhecia, mas em muito em breve passaria a conhecer toda a ferocidade e superioridade dos cães, de um cão raivoso e vingativo, uma fúria assassina ensandecida. Conheceria toda a poderosa e destrutiva fúria canina.

Conto: Infarto (Alastair Dias)



Todos os outros estavam curtindo o Carnaval. A casa estava quase deserta, exceto por um velho que preferiu ficar sozinho e deitado no sofá, vendo os desfiles das escolas de samba.
Entre um cochilo e outro, ele via alguma coisa.
Quando acordou de um desses cochilos, viu na televisão uma máscara espantosa. Assustou-se com o que vira e morrera.
Na autópsia, os peritos alegaram que o infarto fora provocado pela excitação de ver tantas mulheres lindas e seminuas.
— Velho tarado! — zombou um deles, enquanto preenchia a ficha.

Conto: Naquela Noite Morria Daiane (Alastair Dias)

Então, Halloween, Dia das Bruxas ou Dia do Saci, etc...

Alastair fez um conto recentemente após ler as notícias sobre Amanda Todd, aquela moça canadense que se suicidou após uma série de acontecimentos referentes a estupidez que é o bullying. Era para ser completo, mas ele optou por deixar apenas o que será lido aqui, pois "a realidade é a mais cruel das coisas horrorosas do universo".

Enfim, boa leitura.




Naquela noite morria Daiane. E ninguém a viu se jogar ao mar, com os olhos sangrando, com o peito doendo. Ela morreu como uma indigente, como uma andarilha, em meio ao esquecimento. Achariam seu corpo dias depois, perto da praia, quilômetros de distância do local em que seu pescoço fora fraturado, a água salgada lavou seu sangue. Mas, algumas pessoas a viram no dia seguinte; algumas ainda contaram a outras, contudo nenhuma encontrou o corpo, viu o cadáver parcialmente decomposto, coberto de algas e bichos repugnantes alimento de sua carne putrefata. O fato é que Daiane morreu naquela noite escura, de prelúdio de tempestade, de relâmpagos medonhos, ventos furiosos e trovões estrondosos. Morreu, é claro, para toda aquela dor sumir de seu peito, para a morte lhe dar a paz perdida há meses em vida. Talvez a morte que ela procurasse não fosse tudo, talvez em seu íntimo a ânsia de parar com tudo aquilo tenha feita algo brotar com uma força demoníaca ou angelical, uma força vingativa que nem mesmo sua ida tenha consigo evitar os eventos que antecedera aquela manhã melancólica em que um pescador encontrara seu corpo próximo de um rochedo. Mas, o fato é: Daiane estava morta em corpo, mas viva em espírito. E seu espírito clamava por vingança.
A vida dela fora normal até o dia em que ganhara aquela maldita bolsa para frequentar uma importante faculdade. Não possuía recursos para bancar aquele nível tão alto de ensino, mas sua inteligência a possibilitara ganhar a bolsa. Parecia um sonho, mas era, na verdade, um grande pesadelo. Fora excluída por quase todos, passando a sofrer humilhações constantes, ser chamada de nomes que feriam como ferro em brasa. Tudo doía. E a dor nunca era maior do que a seguinte, a do dia seguinte. Se ela conseguira escapar do trote aplicado aos calouros, sofrera por meses aquilo que teria sofrido num único dia, sempre em doses maiores, sempre em situações constrangedoras.
Obrigada a fazer coisas e mais coisas para evitar que tudo fugisse de controle, que a situação se tornasse maior, Daiane se viu num círculo vicioso, no qual sempre havia algo, sempre tinha a possibilidade de a panela de pressão explodir e espalhar tudo ao ventilador. Os garotos souberam tirar proveito daquele medo, souberam abusar das emoções abaladas dela. E as garotas, sempre cruéis, sempre superiores, ridicularizavam-na. E ela sofria quieta, vendo sua vida, seu futuro ser destruído.
Nos primeiros dias, percebera que não era bem-vinda ali. Sabia que isso aconteceria devido ao preconceito, mas tinha fé, a vã esperança de superar aquilo. Era simpática e solidária, sempre prestativa, ajudando quem precisasse. Até achara que conquistara algumas amizades. Um erro fatal. Sobretudo ao confiar em duas pessoas. Uma jovem de idade próxima a dela. E um rapaz por quem se apaixonara.
Talvez se não tivesse confiado neles, se não tivesse se deixado envolver pelo charme dele, se não tivesse contado nada para ela... Mas, infelizmente, a vida não é feita de suposições quanto ao passado, pois apenas os historiadores e escritores possuem a preocupação com as possibilidades perdidas. Havia confiado porque era de sua natureza, de sua humilde educação, fosse a familiar ou a religiosa, confiar no melhor, mesmo em pessoas, que raramente possuem algo bom. E era ingênua demais para esconder algo que sentia pela primeira vez.
Contara para Sara que gostava de Tadeu. E acabara iniciando as complicações que fariam de sua vida um pesadelo amargo e constante. Não deveria ter seguido o conselho da colega, não deveria ter aceitado o convite estranho dele para saírem qualquer dia, não deveria ter bebido aquele refrigerante. Nunca se aceita nada de pessoas desconhecidas, mesmo que sejam da mesma classe. Jamais. São ensinamentos que se aprende desde criança. E são muito verdadeiros.
Era uma noite de sábado quando fora estuprada. Sim, estuprada covardemente por quem era apaixonada e por outros dois. E alguém filmou. Agora as humilhações passaram de apenas por ser uma pobre estudante bolsista para ser vagabunda. As chantagens assumiram um patamar perigoso demais, até mesmo para a colega em quem Daiane confiara seu segredo; sete jovens apenas, nada mais do que isso, transformaram a vida dela num inferno. A oitava, enojada com tudo aquilo, afastou-se, com um remorso que a perseguiria por dias, semanas, meses, anos, se caso vivesse até lá.
Durante os intervalos entre as aulas, um ou outra passava a mão em suas pernas ou nádegas, com gracejos imorais, propondo coisas, ameaçando pôr na Internet o vídeo e as fotos que tinham daquela noite. Com exceção de Paulo, que era namorado de Renata, os garotos se divertiram muito com o que exigiam que ela fizesse. E mais e mais material contra a chantageada surgiam, agravando a sua delicada situação. E as garotas se contentavam em espalhar boatos, sugerindo coisas contra a moral e o caráter da colega, que apenas abaixava a cabeça e ia para o banheiro chorar, ansiosa para ir para casa e se isolar. Os fins de semana eram aguardados com desespero, afinal eram dois dias longe de todo aquele ambiente deplorável.
Contudo, uma vez iniciada a roda destrutiva, a cadeia de acontecimentos aumenta num efeito semelhante a um de uma bola de neve descendo uma enorme montanha, arrasando tudo o que encontra pela frente. Tudo. E que lugar mais propício para a semente da maldade se espalhara do que as redes sociais, do que alguém que possui milhares de contatos? Bastaram apenas três ou quatro imagens para o clima mórbido da vida se tornar tão negro quanto o manto da madrugada.
Diariamente, quase como uma rotina, mensagens e mais mensagens, montagens com suas fotos e todo tipo de coisa surgia, estampando aquilo que ela não fora incapaz de conter. A família se tornara alvo também, vendo a filha definhar num estado catatônico, enquanto toda a cidade a via como uma vadia, uma meretriz. A igreja que frequentava foi o primeiro lugar a apontar o dedo em sua cara e urrar coisas; o povo de Deus, que deveria acolher, amar e ajudar, fez exatamente o que fizeram os fariseus: atirara pedras e tijolos, caluniara, abominara. Em momento algum ouviu o lado de Daiane, jamais se importaram com a sua saúde mental.
A polícia fora pouco produtiva em encontrar informações. Era quase certo de que um hacker espalhara aquelas imagens e os vídeos, que logo alcançaram uma audiência estrondosa. O Brasil inteiro conhecia sua história, fosse através de meios caluniosos ou em algum telejornal, revista ou jornal. E nada parecia melhorar. Ameaças de morte, vandalismo. Sem qualquer saída, a família se mudou para o litoral, numa vila de pescadores. A pobre moça, entretanto, já estava morta antes da viagem; respirava ainda, é verdade, mas sua alma, seu amor-próprio se perdera há muito tempo. Não era mais aquela jovem doce e sonhadora, amável, feliz, inteligente; havia uma carcaça apenas, uma figura magricela, semimorta, com o coração destruído, assim como os sonhos e a vida. Nem a justiça, que tardava a condenar os acusados que a vítima apontara, traria seu brilho de volta.
E assim ela se matou. Era uma noite chuvosa. Parecia que o mundo chorava pela escolha de Daiane. E era quase meia-noite quando a Morte abriu seus braços, envolvendo-a em seu manto negro, sussurrando “Descanse, minha pequena, pois todos pagarão por seu sofrimento” em seus ouvidos, enquanto as ondas arrastavam seu corpo sem vida.