O PseudoAutor

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Baiano nascido numa tarde de julho de 1991. Agnóstico e hipster, estudante de História, apaixonado por simbologias, mitologias e animais pré-históricos.

Escreve amadoramente desde 2007; após alguns anos e quase trinta livros rascunhados, Alec publicou uma coletânea de histórias curtas (Zarak, o Monstrinho, Multifoco, 2011), um conto numa antologia sobre répteis cuspidores de fogo (Dragões, Draco, 2013) e um romance autobiográfico fantástico (A Guerra dos Criativos, independente, 2013), além de algumas obras virtuais na Amazon.

Atualmente se divide em pesquisas para projetos literários e coordenação editorial de um selo independente.

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Conto: Naquela Noite Morria Daiane (Alastair Dias)

Então, Halloween, Dia das Bruxas ou Dia do Saci, etc...

Alastair fez um conto recentemente após ler as notícias sobre Amanda Todd, aquela moça canadense que se suicidou após uma série de acontecimentos referentes a estupidez que é o bullying. Era para ser completo, mas ele optou por deixar apenas o que será lido aqui, pois "a realidade é a mais cruel das coisas horrorosas do universo".

Enfim, boa leitura.




Naquela noite morria Daiane. E ninguém a viu se jogar ao mar, com os olhos sangrando, com o peito doendo. Ela morreu como uma indigente, como uma andarilha, em meio ao esquecimento. Achariam seu corpo dias depois, perto da praia, quilômetros de distância do local em que seu pescoço fora fraturado, a água salgada lavou seu sangue. Mas, algumas pessoas a viram no dia seguinte; algumas ainda contaram a outras, contudo nenhuma encontrou o corpo, viu o cadáver parcialmente decomposto, coberto de algas e bichos repugnantes alimento de sua carne putrefata. O fato é que Daiane morreu naquela noite escura, de prelúdio de tempestade, de relâmpagos medonhos, ventos furiosos e trovões estrondosos. Morreu, é claro, para toda aquela dor sumir de seu peito, para a morte lhe dar a paz perdida há meses em vida. Talvez a morte que ela procurasse não fosse tudo, talvez em seu íntimo a ânsia de parar com tudo aquilo tenha feita algo brotar com uma força demoníaca ou angelical, uma força vingativa que nem mesmo sua ida tenha consigo evitar os eventos que antecedera aquela manhã melancólica em que um pescador encontrara seu corpo próximo de um rochedo. Mas, o fato é: Daiane estava morta em corpo, mas viva em espírito. E seu espírito clamava por vingança.
A vida dela fora normal até o dia em que ganhara aquela maldita bolsa para frequentar uma importante faculdade. Não possuía recursos para bancar aquele nível tão alto de ensino, mas sua inteligência a possibilitara ganhar a bolsa. Parecia um sonho, mas era, na verdade, um grande pesadelo. Fora excluída por quase todos, passando a sofrer humilhações constantes, ser chamada de nomes que feriam como ferro em brasa. Tudo doía. E a dor nunca era maior do que a seguinte, a do dia seguinte. Se ela conseguira escapar do trote aplicado aos calouros, sofrera por meses aquilo que teria sofrido num único dia, sempre em doses maiores, sempre em situações constrangedoras.
Obrigada a fazer coisas e mais coisas para evitar que tudo fugisse de controle, que a situação se tornasse maior, Daiane se viu num círculo vicioso, no qual sempre havia algo, sempre tinha a possibilidade de a panela de pressão explodir e espalhar tudo ao ventilador. Os garotos souberam tirar proveito daquele medo, souberam abusar das emoções abaladas dela. E as garotas, sempre cruéis, sempre superiores, ridicularizavam-na. E ela sofria quieta, vendo sua vida, seu futuro ser destruído.
Nos primeiros dias, percebera que não era bem-vinda ali. Sabia que isso aconteceria devido ao preconceito, mas tinha fé, a vã esperança de superar aquilo. Era simpática e solidária, sempre prestativa, ajudando quem precisasse. Até achara que conquistara algumas amizades. Um erro fatal. Sobretudo ao confiar em duas pessoas. Uma jovem de idade próxima a dela. E um rapaz por quem se apaixonara.
Talvez se não tivesse confiado neles, se não tivesse se deixado envolver pelo charme dele, se não tivesse contado nada para ela... Mas, infelizmente, a vida não é feita de suposições quanto ao passado, pois apenas os historiadores e escritores possuem a preocupação com as possibilidades perdidas. Havia confiado porque era de sua natureza, de sua humilde educação, fosse a familiar ou a religiosa, confiar no melhor, mesmo em pessoas, que raramente possuem algo bom. E era ingênua demais para esconder algo que sentia pela primeira vez.
Contara para Sara que gostava de Tadeu. E acabara iniciando as complicações que fariam de sua vida um pesadelo amargo e constante. Não deveria ter seguido o conselho da colega, não deveria ter aceitado o convite estranho dele para saírem qualquer dia, não deveria ter bebido aquele refrigerante. Nunca se aceita nada de pessoas desconhecidas, mesmo que sejam da mesma classe. Jamais. São ensinamentos que se aprende desde criança. E são muito verdadeiros.
Era uma noite de sábado quando fora estuprada. Sim, estuprada covardemente por quem era apaixonada e por outros dois. E alguém filmou. Agora as humilhações passaram de apenas por ser uma pobre estudante bolsista para ser vagabunda. As chantagens assumiram um patamar perigoso demais, até mesmo para a colega em quem Daiane confiara seu segredo; sete jovens apenas, nada mais do que isso, transformaram a vida dela num inferno. A oitava, enojada com tudo aquilo, afastou-se, com um remorso que a perseguiria por dias, semanas, meses, anos, se caso vivesse até lá.
Durante os intervalos entre as aulas, um ou outra passava a mão em suas pernas ou nádegas, com gracejos imorais, propondo coisas, ameaçando pôr na Internet o vídeo e as fotos que tinham daquela noite. Com exceção de Paulo, que era namorado de Renata, os garotos se divertiram muito com o que exigiam que ela fizesse. E mais e mais material contra a chantageada surgiam, agravando a sua delicada situação. E as garotas se contentavam em espalhar boatos, sugerindo coisas contra a moral e o caráter da colega, que apenas abaixava a cabeça e ia para o banheiro chorar, ansiosa para ir para casa e se isolar. Os fins de semana eram aguardados com desespero, afinal eram dois dias longe de todo aquele ambiente deplorável.
Contudo, uma vez iniciada a roda destrutiva, a cadeia de acontecimentos aumenta num efeito semelhante a um de uma bola de neve descendo uma enorme montanha, arrasando tudo o que encontra pela frente. Tudo. E que lugar mais propício para a semente da maldade se espalhara do que as redes sociais, do que alguém que possui milhares de contatos? Bastaram apenas três ou quatro imagens para o clima mórbido da vida se tornar tão negro quanto o manto da madrugada.
Diariamente, quase como uma rotina, mensagens e mais mensagens, montagens com suas fotos e todo tipo de coisa surgia, estampando aquilo que ela não fora incapaz de conter. A família se tornara alvo também, vendo a filha definhar num estado catatônico, enquanto toda a cidade a via como uma vadia, uma meretriz. A igreja que frequentava foi o primeiro lugar a apontar o dedo em sua cara e urrar coisas; o povo de Deus, que deveria acolher, amar e ajudar, fez exatamente o que fizeram os fariseus: atirara pedras e tijolos, caluniara, abominara. Em momento algum ouviu o lado de Daiane, jamais se importaram com a sua saúde mental.
A polícia fora pouco produtiva em encontrar informações. Era quase certo de que um hacker espalhara aquelas imagens e os vídeos, que logo alcançaram uma audiência estrondosa. O Brasil inteiro conhecia sua história, fosse através de meios caluniosos ou em algum telejornal, revista ou jornal. E nada parecia melhorar. Ameaças de morte, vandalismo. Sem qualquer saída, a família se mudou para o litoral, numa vila de pescadores. A pobre moça, entretanto, já estava morta antes da viagem; respirava ainda, é verdade, mas sua alma, seu amor-próprio se perdera há muito tempo. Não era mais aquela jovem doce e sonhadora, amável, feliz, inteligente; havia uma carcaça apenas, uma figura magricela, semimorta, com o coração destruído, assim como os sonhos e a vida. Nem a justiça, que tardava a condenar os acusados que a vítima apontara, traria seu brilho de volta.
E assim ela se matou. Era uma noite chuvosa. Parecia que o mundo chorava pela escolha de Daiane. E era quase meia-noite quando a Morte abriu seus braços, envolvendo-a em seu manto negro, sussurrando “Descanse, minha pequena, pois todos pagarão por seu sofrimento” em seus ouvidos, enquanto as ondas arrastavam seu corpo sem vida.

Dicas do PseudoEscritor: Como começar a escrever?


Como eu já devo ter dito em algum lugar, não sou um escritor dos mais notáveis, inteligentes, famosos ou originais, mas tenho uma criatividade assombrosa (e não é um elogio). Minhas ideias vão desde povoar meus livros com monstros retirados de alguma mitologia (vide dragões, fadas, elfos, centauros, trolls, deuses) a criaturas exclusivas, algumas presenteadas pelos amigos (vide douncearks, povos que se alimentam de ossos).

O motivo desta postagem é uma forma de passar aquilo que aprendi e uso a quem volta e meia me procurando pedindo ajuda. Claro que não sou muito bom nisso, mas eis algumas coisas que me são valiosas.

  • Comece com histórias curtas.

É a primeira de todas as leis para se escrever. E não estou dizendo para você começar a escrever contos, pois eles são complicados, exigem uma grande habilidade de sintetizar as coisas, de ser capaz de começar e terminar uma ideia com certa perfeição. Sugiro iniciar com qualquer texto mesmo. Poesia, diário, textos soltos. Use um caderno pequeno, de poucas folhas e vá escrevendo. Logo terá uma ideia que poderá ser interessante.

  • O que você gostaria de ler?

Há uma frase dita por Toni Morrison que define bem minha motivação para escrever:

"Se há um livro que você quer ler, mas não foi escrito ainda, então você deve escrevê-lo."

Portanto, pergunte sempre "O que eu gostaria de ler?". Afinal, o primeiro leitor de sua ideia é você, que a escreverá.

  • Planeje o que pretende contar.

Admito que odeio roteiros, odeio mesmo ter de planejar o que escrever, como escrever, mas não é nada ruim planejar um pouco as coisas, montar perfis de personagens, pensar em vestuário, em cenários, em nomes, em lugares. É um exercício criativo, além de proporcionar a você ter muito material quando começar a escrever sua história.

  • Faça trechos avulsos.

Não sei se funciona com todos, mas visualizar cenas e escrevê-las a bel-prazer, até mesmo as mais isoladas, permite a você trabalhar a imaginação, reunindo material para as suas histórias, permitindo que você não esqueça algum detalhe importante. Meu primeiro livro, Ariane, teve uns cinco capítulos escritos assim, sendo posteriormente reunidos por trechos escritos em sequência.

  • Leia muito!

É algo que todos dizem, mas vale a pena ressaltar. Mas, não perca tempo lendo livros determinados. Leia sobre tudo! De revista de horóscopo a bula de remédio, de livro didático a jornais. Seja capaz de ler um pouco de tudo, mesmo aquilo que não goste. Encare até um dicionário! Ou você terá um rico vocabulário ou terá conhecimento breve de coisas que poderão enriquecer sua história.

  • Escreva apenas sobre aquilo que você entenda ou corra o risco de avançar em terrenos desconhecidos!

Meu primeiro livro era sobre um rapaz que se apaixona por uma deusa grega. A trama se desenrolava em parte no Olimpo, noutro mundo que criei, e na cidade que moro, Luís Eduardo Magalhães (Bahia). Naquela época eu já tinha conhecimento de mitologia greco-romana. Posteriormente, fui adquirindo coragem para ir além, como no atual livro, O Fantástico Mundo do Absurdo, no qual tive de pesquisar muito sobre mitologia celta. Enfim, faça aquilo que achar melhor para sua ideia!


Bem, tem mais coisas, mas creio que estas bastam para se iniciar seu longo caminho. Qualquer dia, se me der na teia, posto mais. E lembre-se: você pode ignorar tudo isso e escrever suas próprias regras, assim como geralmente eu faço quando não sou a favor de algo! =P

Seja MUITO teimoso!


Eu estava assistindo semana passada os dois primeiros filme da série Duro de Matar. Foi uma forma de resgatar os anos de infância, quando eu me divertia com aqueles filmes de atores hoje reunidos em Os Mercenários (e alguns que ainda não figuraram nem no primeiro nem no segundo). Interessante como entre a década de 1980 e 1990 surgiram alguns filmes que se tornaram memoráveis, marcando as vidas de várias pessoas.

Mas, não é sobre filmes que quero falar, mas sim do personagem John McClane. Ele é um bom exemplo de tudo aquilo que é feito um herói (e um anti-herói também): é corajoso, não foge do dever, é esperto, é determinado, sabe se virar com o que tem, é problemático, sarcástico, cínico... Nem mesmo o perigo de morrer o impede.

Portanto: seja teimoso! MUITO teimoso! Ou teimosa...

Sim, eu sei que não somos como um protagonista de um filme de ação, pulando de prédios em chamas, matando pessoas ou salvando o mundo. Somos apenas pobres mortais, contudo sejamos teimosos quanto ao que queremos, ao que sonhamos.

Recordo-me das dificuldades que enfrentei quando resolvi escrever um livro. Cadernos e cadernos preenchicos, em busca de uma ideia que estava ali, mas nunca surgia forte o suficiente para se pôr no papel. Anos e anos de teimosia. E sempre falava aos professores que ainda escreveria um livro, e atormentava alguns com meus escritos, pedindo opinião.

Fiz algumas fanfictions baseadas em filmes com dinossauros, como o fantástico Jurassic Park. Com o tempo, a série televisiva O Mundo Perdido complementou meu fascínio. Surgiram dois livros feitos em cadernos pequenos. Infelizmente acabei perdendo ambos, restando apenas um título (que hoje considero idiota): Em Busca do Tesouro em Dino World Park.

Ano passado (setembro de 2011), publiquei Zarak, o Monstrinho e Outras Noveletas Fantásticas, com quatro histórias curtas, incluindo a do personagem Zarak, que acabou gerando uma trilogia (que pretendo unificar num grande volume) A Guerra dos Criativos, que é considerado por muitos a minha melhor ideia. E quase no fim deste ano, finalizo o enorme volume O Fantástico Mundo do Absurdo, um projeto entre mim e meus dois heterônimos.

Mas, voltando ao personagem John McClane: eu sou MUITO teimoso! Do tipo que cai, apanha, quase morre, mas se mantém em pé e tentando sorrir. Não vou ficar de choradeira aqui, mas sim dizer com orgulho que tanto eu quanto Alastai Dias estamos avançando aos poucos, participando de antologias, entrando em contato com editoras em potencial, aumentando a rede de amigos...

Se você tem um sonho, persista, teime, insista! Se uma editora recusou sua ideia, seu livro, mande a outra ou comece outra ideia. Eu paralisei Ariane, meu primeiro livro, para poder dar continuidade a outros. Se tudo tiver perdido, faça como o personagem do Bruce Willis: pense num plano e se levante, pois a luta é árdua mesmo em qualquer coisa que queira fazer na vida.

Se um homem é capaz de cair de um avião decolando, escapar de um tiroteio num telhado, pular de vários andares sem morrer, sobreviver a um caça destruindo uma ponte... bem, acho que podemos suportar alguns obstáculos que atrasam nossos sonhos, não?

Coragem [Alécio Silva]


Ele a olhou com olhos cansados. Mick Jagger cantava Hard Woman no aparelho de som. Uma taça de vinho vazia; outra, pela metade, com uma marquinha discreta de batom vermelho.
A sala de jantar era iluminada apenas pelas velas espalhadas, a pedido dela, em cantos estratégicos pelos empregados, que também fizeram o melhor cardápio possível para aquela noite; um trabalho inútil, já que, ao chegar, ele não notou os detalhes, como a boa safra do vinho que bebeu em goles demorados e cheios, uma, duas, três taças em menos de cinco minutos, ou como o salmão estava divinamente temperado com os ingredientes que tanto apreciava. O mais grave, contudo, foi não ter notado ela, que estava belíssima com aquele vestido que ganhara dele, meses antes, numa viagem que deveria ter sido inesquecível. Quando notou algo, os olhos tristonhos da namorada já estavam em lágrimas e suas mãos delicadas cobriam seu rosto frágil, manchado pela maquiagem tão cuidadosamente escolhida para aquela ocasião que se tornara frustrante.
Nem um nem outro saberia responder, se questionados, quando tudo aquilo desandou, quando um deixou de se importar tanto com o outro; talvez ela tenha começado, ao não perguntar mais como fora o dia estressante de trabalho; ou ele, ao ignorá-la para assistir as partidas de seu time de futebol favorito. Embora morassem juntos, uma decisão tomada poucas semanas depois do início do namoro, eram quase desconhecidos, duas pessoas que, ocasionalmente, cruzavam passos pela sala, quarto ou cozinha; dormiam juntos, faziam amor, mas faltavam algo, uma coisa que tiveram não há muito tempo.
— Eu... eu não sei mais o que fazer... — ela disse, soluçando, sem descobrir os olhos ou demonstrar interesse em encará-lo.
— Eu também não — replicou o namorado, enchendo a quarta taça, quase esvaziando a garrafa de vinho tinto, safra de 1945, ano que o mundo comemorou uma grande vitória, algo que, segundo a segundo, aquele casal estava aparentemente longe de conhecer o sabor.
O amor não era uma guerra, e sim um jogo; não era feita por perdedores e ganhadores para que funcionasse, mas por ambos os lados vencedores, triunfantes e felizes, brindando as alegrias e vitórias. Se ocorresse de um dos lados ficar infeliz, insatisfeito com aquele jogo de olhares, palavras, gestos e provocações, tudo se perdia e ficava complicado de se sustentar. Para o casal de namorados, entretanto, estava ainda pior: ela, que fora sempre sonhadora e romântica, que adorava mimar e ser mimada, estava amargurada, quase em desespero, afinal sentia que o perdia; e ele, apesar de aparentar certa frieza, que sempre fora amoroso e adorava as demonstrações de carinho dela, sentia-se carente de atenção e obrigado a se preencher com as futilidades da televisão. E assim o namoro se afundava num lamaçal de tristezas e lamentações, fadado a acabar logo.
— Eu tentei... juro por Deus... tentei fazer este jantar ser bom... mas tudo o que você fez foi secar essa maldita garrafa de vinho e nem me olhar direito! — ela explodiu, agora o fitando com aqueles lindos olhos carregados de uma dor que apenas o coração entenderia o significado.
— Desculpa, de verdade — as palavras saíram dos lábios dele de maneira tranquila, mas o tom de voz tremia, denunciando uma empatia ainda existente. — Eu só estou muito cansado... muito cansado de tudo, do trabalho, dos amigos, que só me procuram para pedir dinheiro, de você...
— De mim?!
Ele não queria ter dito aquilo; não queria iniciar uma briga, sendo que a última, semana passada, quase arruinou toda a fraca estrutura do relacionamento e o fizera perder alguns bons contatos no trabalho. Aliás, ali estava o fio condutor de toda sua vida: ela; se a namorada estivesse bem, era mais fácil fazer negociações, animar-se para convidá-la para festas e ter noites de amor; quando ela estava desanimada, tudo desabava em volta.
— Não de você, mas disso que você se transformou — respondeu, arfando e bebericando o vinho. — Não te reconheço mais como antes.
— Não me reconhece?! — esbravejou ela, levantando-se e batendo as mãos abertas na mesa, sacudindo um pouco os objetos devido à violência. — Não sou eu quem prefere ver aqueles programas idiotas a assistir um filme juntinhos! Nem sou eu quem detesta o jeito que deixa o sofá da sala, pois incomoda para jogar videogame!
— Mas é aquela que se preocupa tanto em me agradar e não nota que tudo o que preciso é que seja você mesma, afinal eu me apaixonei por quem você é e não pelo que poderia fazer.
Os dois se olharam; pareciam não namorados apaixonados, jovens que planejavam um futuro juntos, sonhavam com uma família e viagens pelo mundo; pareciam, na verdade, adversários num ringue, prontos para se socarem e sangrarem, até que um deles caísse ou desistisse do combate.
Mas ela estava mais cansada do que ele, frustrada por nada dar certo; e não queria mais ser o incômodo, aquela que atrapalhava sua vida. Controlou como pôde as emoções, o nervosismo que sentia.
— Eu te amo muito — falou, num gesto de derrota, andando devagar para fora da sala. Deteve os passos antes do limiar, voltando-se para ele, complementando: — Precisamos reconhecer que não somos um para o outro. Te falta agora a coragem que te sobrou naqueles dias após a noite de 14 de julho de 2012.
E se retirou, sem perceber como os olhos dele se arregalaram; aparentava ter desistido de tudo, talvez guardando suas coisas em malas e bolsas e saindo da casa ainda pela manhã, com aqueles lindos olhos cheios de lágrimas e o coração, tão grande para um corpo tão pequeno, batendo com tristeza, dando adeus a tudo o que acreditava ser valioso em sua vida.
A quarta taça estava vazia; ele olhava para o vazio, aquela ausência que seria quando a namorada partisse, saísse de sua vida. Não queria aquilo, não estava preparado para voltar para aquele estado de incertezas; e faltava-lhe a coragem para agarrar as rédeas e reassumir o controle. Então, num estalo de pensamento, compreendeu que ela sempre fora a corajosa no relacionamento, ainda que focando em coisas que ele considerava desnecessárias, e foi desanimando com a falta de incentivo... até ser quem agora era. Naquela noite, havia dado o último lampejo de coragem e falhado de novo; era a gota.
Levantou-se, enxugando as lágrimas, ciente do que deveria fazer; demorou para tomar aquela atitude. Encontrou-a dormindo na cama; parte das malas estavam arrumadas no canto, como previu que estariam, as portas dos armários abertas, peças de roupas pelo chão, a cama bagunçada: ela dormiu na metade da arrumação, exausta de tanto sofrimento e choro. Sem falar nada, sem qualquer medo, ele se deitou ao seu lado, abraçando-a bem forte, como há muito não fazia.
— Juro que terei aquela mesma coragem de antes — sussurrou, com a voz trêmula —, juro que nosso amor não vai morrer. E somos, sim, feitos um para o outro.
E ali ficou, até adormecer e encontrá-la num sonho que há semanas não tinha: aquela noite, 14 de julho, algum tempo antes, quando teve coragem parecida com aquela que recuperava ao tomar consciência que quase a perdeu por covardia.

Conto: Páginas Rubras (Alastair Dias)



Uma olhada no relógio de pulso e outro gole generoso no uísque servido pela empregada. A paciência o consome, atormenta-o. A visita ao amigo, naquela noite chuvosa, não era uma mera cortesia; havia uma urgência, uma séria e importante urgência.
O detetive conhece o anfitrião ausente desde a mocidade, quando ambos dividiam o quarto no campus da faculdade mineira. Ele fazia Direito e o outro, Letras. Ambos compartilhavam uma aula ou outra, estudavam algumas vezes juntos e se divertiam.
A amizade se estendeu quando concluíram os cursos e seguiram carreiras tão opostas. Um se tornara policial, almejando ser um investigador especializado em assassinatos em série; o outro acabara sendo um escritor de renome, autor de romances de aventuras e policiais.
Sempre que havia tempo o detetive visitava a casa do escritor. Ambos conversavam por horas sobre livros e crimes, falavam de Sherlock Holmes e Dupin, dois grandes detetives da literatura, e dos criminosos que o policial conseguia prender.
O autor, o ficcionista, que era um ávido leitor e um herdeiro de uma fortuna incalculável, entendia os meios dos assassinos e auxiliava o amigo, usando como base os personagens de seus livros. E muitas vezes as suas dicas eram valiosas.
E naquela noite o real e o literário se encontrariam uma vez mais. Parece que o destino cisma de uni-los e fazê-los se confrontar.
O tempo passa imensuravelmente devagar, obrigando o detetive a olhar o relógio a cada um ou dois minutos, ansioso. Por onde anda o autor?
Enquanto aguarda, seus olhos perdem-se na quantidade exorbitante de livros, jornais e revistas que há na biblioteca do amigo. Há tanta informação, tanto conhecimento, que levaria séculos para um homem ávido por saber ler tudo aquilo.
Por ser tão rico e possuir tempo para se dedicar a literatura, o escritor provavelmente já teria folheado todos aqueles exemplares e vislumbrado outra informação.
Tentando distrair a mente, o policial lembrou-se do amigo como um nerd, uma pessoa apaixonada por livros, o que apenas confirmava o motivo que o fizera recorrer a ele nesta noite.
Ele pensou num criminoso em particular, um desgraçado que há anos vinha matando animais, crianças, idosos, mendigos, homens e mulheres, sem ter um padrão definido, sem um ter um perfil determinado. Apenas matava aparentemente ao acaso.
Por meses, desde que recebera o caso, o investigador buscou pistas, todas nulas e inúteis, que nada revelavam: data de nascimento, número de letras, vogais ou consoantes, nada, nada!
Tudo parecia perdido, mas então a imagem do amigo escritor surgiu e permaneceu! Ele poderia ajudar!
E aqui está o homem da lei, na espera do literato.
Enquanto aguarda, seus olhos correm por um enorme volume numa outra mesa, quase discreto. Curioso, aproxima-se e lê o título Páginas Rubras em dourado sobre uma capa de couro negro.
Ele abre e depara-se com uma frase:
O sangue escreve a história de toda uma vida.
Estranho! Folhea um pouco. A surpresa: a primeira página revela uma foto em preto e branco, abaixo um nome em escarlate; na seguinte também outra foto e outro nome; e se repete em inúmeras outras. Dezenas de fotos e nomes de pessoas e animais.
Seu coração pulsa rápido, incontrolável. Lembra-se do amigo e de sua obsessão por livros; nunca admitira um rabisco, um simples rasgadinho; uma vez xingara uma namorada que se atreveu a amassar por acidente uma revista.
O policial folheia e lê os motivos de constarem os nomes e as fotos: todos envolvendo “crimes contra a literatura”.
Desesperado, ele continua folheando, os olhos arregalados. Termina, após centenas de páginas, numa foto de um homem conhecido demais: ele próprio.
Apavora-se. Procura se lembrar o motivo de ter seu nome ali, naquele livro macabro, naquela coleção de vítimas. O sangue gela. Recorda-se de queimar um livro muito velho, inútil, minutos antes de o escritor chegar a sua casa; ele vira alguma folha queimada!
Ele tenta se mover, mas sente uma dor. O nariz sangra, a cabeça dói, o corpo cai. O chá. O chá fora envenenado!
Caído no chão frio, o investigador vê o escritor aproximar-se e se curvar para ele segurando uma pena. Sente a ponta fina em sua narina. O literato se afasta, aproxima-se do manuscrito e escreve por alguns segundos. A seguir pega o volume aberto e fita a nova vítima, triste.
— Por quê? — pergunta o policial após reunir forças.
— Porque não posso parar de escrever meu livro — responde o outro, afastando-se.
E a morte recolhe outro personagem de um conto de letras de sangue, outro personagem para as malditas Páginas Rubras.

Poema: Ai de Toda Essa Saudade! (Alécio Silva)



Ai de toda essa saudade sofrida,
Que me consome a cada instante,
Que abre em meu peito pulsante
A mais mortal de todas as feridas!

Ai de toda essa dor — angustiante —
Que me arranca a paz tão querida
— E cujos sonhos me eram guaridas —,
Sufocando-me com lembranças delirantes!

Sofrerei, talvez, a eterna certeza
De sofrer pela ausência
Da senhora da grande beleza

Que me conquistou com seu sorriso,
Marcando a minha breve existência
Com a falta de quem nunca esteve comigo.

Perguntas do Ask #1


Recentemente criei uma conta no Ask, o que gerou certo espanto de meus amigos, pois sou considerado muito hipster para ter algo assim... Até pode ser considerado um dos sinais para o fim próximo do mundo. Tudo bem que sou meio averso ao novo, ao que é moda em muitas áreas, mas sei ver o futuro e acompanhar o seu ritmo, e uma prova disso é que tenho uma conta quase esquecida no Twitter, algo que nem cogitava em ter!

Mas, o motivo desta postagem são 3 perguntas sobre literatura, sobre a MINHA literatura. Respondi lá, mas gostaria de postar aqui as perguntas e as suas respostas.

  • Qual seu diferencial na literatura?
Bem, nenhum. Apenas estou aberto a tentar e me arriscar, a investir em ideias insanas, em projetos malucos, a olhar para trás e ver coisas legais que dariam boas histórias. De vez em quando tenho um surto e crio algo estranho e original, como a autobiografia fantástica, que graças a Deus irá render uma série de livros em parceria. Apenas isso. Sou criativo demais e inquieto, sempre disposto a experimentar algo. =)

  • Qual o objetivo dos seus livros ou o livro que está escrevendo no momento?
Bem, existem alguns objetivos, algumas metas que eu pretendo a cada livro. Primeiro: contar uma história, algo que eu gostaria de ler e que espero que mais alguém goste; eu preciso gostar daquilo que estou escrevendo, que estou criando antes, pois, se eu não, como leitor, for incapaz de gostar, não conseguirei o mesmo de outras pessoas. Segundo: aliviar alguma coisa que me incomoda ou exprimir algo que me agrada; é algo natural de meu gosto pela literatura, tanto para escrever quanto para ler. Terceiro: passar ao leitor alguma coisa, e não me refiro a morais ou me achar capaz de tal tarefa, mas permitir a ele, ao ser humano que lê aquilo que escrevo a sonhar assim como eu sonho; e aí surgem outros detalhes que creio que dispensa notas. E quarto: viver, afinal, do que vale um livro, seja escrito por mim ou por outra pessoa se for incapaz de me fazer viver em algum lugar, em algum tempo, em alguma vida por dezenas, centenas ou milhares de páginas? Bem, é mais ou menos isso.

  • De onde vem a inspiração para seus livros?
Depende do momento, do que estou sentindo, da dor que está me dominando. Por exemplo, o livro que terminei recentemente é sombrio, violento, romântico, poético, belíssimo, mágico... Surgiu da depressão, da dor que me consumia, e foi todo escrito assim, por mais de 4 meses. Tanto que reuniu não apenas meu pseudônimo (Alec Silva) quanto os dois heterônimos, o poeta (Alécio Silva) e o contista (Alastair Dias), sendo uma obra mista, de mais de 190 folhas manuscrias, numa letra bem pequena, aliás. No geral, aprecio mitologia, fatos históricos e possibilidades... Não ligo se a ideia é nova ou não; se é boa, merece minha atenção. Sou um autor visual e experimental sempre.

Bem, é isso... Sem mais. Se alguém quiser perguntar algo ou até mesmo me xingar, aqui está a chance.

Fábula: A Raposa e o Verme (Alastair Dias)



Certa vez, numa floresta, uma raposa se gabava de ser o animal mais esperto. Gabava-se tanto que se descuidou da altura em que se encontrava e caiu do galho da árvore, morrendo ao quebrar o pescoço.

Um verme, que já se aproximava do morto, falou:

"De nada se vale tantas vanglórias acerca de esperteza, se no final todos serão igualados depois da morte, servindo de banquete a nós, os seres rastejantes."