O PseudoAutor

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Baiano nascido numa tarde de julho de 1991. Agnóstico e hipster, estudante de História, apaixonado por simbologias, mitologias e animais pré-históricos.

Escreve amadoramente desde 2007; após alguns anos e quase trinta livros rascunhados, Alec publicou uma coletânea de histórias curtas (Zarak, o Monstrinho, Multifoco, 2011), um conto numa antologia sobre répteis cuspidores de fogo (Dragões, Draco, 2013) e um romance autobiográfico fantástico (A Guerra dos Criativos, independente, 2013), além de algumas obras virtuais na Amazon.

Atualmente se divide em pesquisas para projetos literários e coordenação editorial de um selo independente.

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Conto: Naquela Noite Morria Daiane (Alastair Dias)

Então, Halloween, Dia das Bruxas ou Dia do Saci, etc...

Alastair fez um conto recentemente após ler as notícias sobre Amanda Todd, aquela moça canadense que se suicidou após uma série de acontecimentos referentes a estupidez que é o bullying. Era para ser completo, mas ele optou por deixar apenas o que será lido aqui, pois "a realidade é a mais cruel das coisas horrorosas do universo".

Enfim, boa leitura.




Naquela noite morria Daiane. E ninguém a viu se jogar ao mar, com os olhos sangrando, com o peito doendo. Ela morreu como uma indigente, como uma andarilha, em meio ao esquecimento. Achariam seu corpo dias depois, perto da praia, quilômetros de distância do local em que seu pescoço fora fraturado, a água salgada lavou seu sangue. Mas, algumas pessoas a viram no dia seguinte; algumas ainda contaram a outras, contudo nenhuma encontrou o corpo, viu o cadáver parcialmente decomposto, coberto de algas e bichos repugnantes alimento de sua carne putrefata. O fato é que Daiane morreu naquela noite escura, de prelúdio de tempestade, de relâmpagos medonhos, ventos furiosos e trovões estrondosos. Morreu, é claro, para toda aquela dor sumir de seu peito, para a morte lhe dar a paz perdida há meses em vida. Talvez a morte que ela procurasse não fosse tudo, talvez em seu íntimo a ânsia de parar com tudo aquilo tenha feita algo brotar com uma força demoníaca ou angelical, uma força vingativa que nem mesmo sua ida tenha consigo evitar os eventos que antecedera aquela manhã melancólica em que um pescador encontrara seu corpo próximo de um rochedo. Mas, o fato é: Daiane estava morta em corpo, mas viva em espírito. E seu espírito clamava por vingança.
A vida dela fora normal até o dia em que ganhara aquela maldita bolsa para frequentar uma importante faculdade. Não possuía recursos para bancar aquele nível tão alto de ensino, mas sua inteligência a possibilitara ganhar a bolsa. Parecia um sonho, mas era, na verdade, um grande pesadelo. Fora excluída por quase todos, passando a sofrer humilhações constantes, ser chamada de nomes que feriam como ferro em brasa. Tudo doía. E a dor nunca era maior do que a seguinte, a do dia seguinte. Se ela conseguira escapar do trote aplicado aos calouros, sofrera por meses aquilo que teria sofrido num único dia, sempre em doses maiores, sempre em situações constrangedoras.
Obrigada a fazer coisas e mais coisas para evitar que tudo fugisse de controle, que a situação se tornasse maior, Daiane se viu num círculo vicioso, no qual sempre havia algo, sempre tinha a possibilidade de a panela de pressão explodir e espalhar tudo ao ventilador. Os garotos souberam tirar proveito daquele medo, souberam abusar das emoções abaladas dela. E as garotas, sempre cruéis, sempre superiores, ridicularizavam-na. E ela sofria quieta, vendo sua vida, seu futuro ser destruído.
Nos primeiros dias, percebera que não era bem-vinda ali. Sabia que isso aconteceria devido ao preconceito, mas tinha fé, a vã esperança de superar aquilo. Era simpática e solidária, sempre prestativa, ajudando quem precisasse. Até achara que conquistara algumas amizades. Um erro fatal. Sobretudo ao confiar em duas pessoas. Uma jovem de idade próxima a dela. E um rapaz por quem se apaixonara.
Talvez se não tivesse confiado neles, se não tivesse se deixado envolver pelo charme dele, se não tivesse contado nada para ela... Mas, infelizmente, a vida não é feita de suposições quanto ao passado, pois apenas os historiadores e escritores possuem a preocupação com as possibilidades perdidas. Havia confiado porque era de sua natureza, de sua humilde educação, fosse a familiar ou a religiosa, confiar no melhor, mesmo em pessoas, que raramente possuem algo bom. E era ingênua demais para esconder algo que sentia pela primeira vez.
Contara para Sara que gostava de Tadeu. E acabara iniciando as complicações que fariam de sua vida um pesadelo amargo e constante. Não deveria ter seguido o conselho da colega, não deveria ter aceitado o convite estranho dele para saírem qualquer dia, não deveria ter bebido aquele refrigerante. Nunca se aceita nada de pessoas desconhecidas, mesmo que sejam da mesma classe. Jamais. São ensinamentos que se aprende desde criança. E são muito verdadeiros.
Era uma noite de sábado quando fora estuprada. Sim, estuprada covardemente por quem era apaixonada e por outros dois. E alguém filmou. Agora as humilhações passaram de apenas por ser uma pobre estudante bolsista para ser vagabunda. As chantagens assumiram um patamar perigoso demais, até mesmo para a colega em quem Daiane confiara seu segredo; sete jovens apenas, nada mais do que isso, transformaram a vida dela num inferno. A oitava, enojada com tudo aquilo, afastou-se, com um remorso que a perseguiria por dias, semanas, meses, anos, se caso vivesse até lá.
Durante os intervalos entre as aulas, um ou outra passava a mão em suas pernas ou nádegas, com gracejos imorais, propondo coisas, ameaçando pôr na Internet o vídeo e as fotos que tinham daquela noite. Com exceção de Paulo, que era namorado de Renata, os garotos se divertiram muito com o que exigiam que ela fizesse. E mais e mais material contra a chantageada surgiam, agravando a sua delicada situação. E as garotas se contentavam em espalhar boatos, sugerindo coisas contra a moral e o caráter da colega, que apenas abaixava a cabeça e ia para o banheiro chorar, ansiosa para ir para casa e se isolar. Os fins de semana eram aguardados com desespero, afinal eram dois dias longe de todo aquele ambiente deplorável.
Contudo, uma vez iniciada a roda destrutiva, a cadeia de acontecimentos aumenta num efeito semelhante a um de uma bola de neve descendo uma enorme montanha, arrasando tudo o que encontra pela frente. Tudo. E que lugar mais propício para a semente da maldade se espalhara do que as redes sociais, do que alguém que possui milhares de contatos? Bastaram apenas três ou quatro imagens para o clima mórbido da vida se tornar tão negro quanto o manto da madrugada.
Diariamente, quase como uma rotina, mensagens e mais mensagens, montagens com suas fotos e todo tipo de coisa surgia, estampando aquilo que ela não fora incapaz de conter. A família se tornara alvo também, vendo a filha definhar num estado catatônico, enquanto toda a cidade a via como uma vadia, uma meretriz. A igreja que frequentava foi o primeiro lugar a apontar o dedo em sua cara e urrar coisas; o povo de Deus, que deveria acolher, amar e ajudar, fez exatamente o que fizeram os fariseus: atirara pedras e tijolos, caluniara, abominara. Em momento algum ouviu o lado de Daiane, jamais se importaram com a sua saúde mental.
A polícia fora pouco produtiva em encontrar informações. Era quase certo de que um hacker espalhara aquelas imagens e os vídeos, que logo alcançaram uma audiência estrondosa. O Brasil inteiro conhecia sua história, fosse através de meios caluniosos ou em algum telejornal, revista ou jornal. E nada parecia melhorar. Ameaças de morte, vandalismo. Sem qualquer saída, a família se mudou para o litoral, numa vila de pescadores. A pobre moça, entretanto, já estava morta antes da viagem; respirava ainda, é verdade, mas sua alma, seu amor-próprio se perdera há muito tempo. Não era mais aquela jovem doce e sonhadora, amável, feliz, inteligente; havia uma carcaça apenas, uma figura magricela, semimorta, com o coração destruído, assim como os sonhos e a vida. Nem a justiça, que tardava a condenar os acusados que a vítima apontara, traria seu brilho de volta.
E assim ela se matou. Era uma noite chuvosa. Parecia que o mundo chorava pela escolha de Daiane. E era quase meia-noite quando a Morte abriu seus braços, envolvendo-a em seu manto negro, sussurrando “Descanse, minha pequena, pois todos pagarão por seu sofrimento” em seus ouvidos, enquanto as ondas arrastavam seu corpo sem vida.

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