O PseudoAutor

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Baiano nascido numa tarde de julho de 1991. Agnóstico e hipster, estudante de História, apaixonado por simbologias, mitologias e animais pré-históricos.

Escreve amadoramente desde 2007; após alguns anos e quase trinta livros rascunhados, Alec publicou uma coletânea de histórias curtas (Zarak, o Monstrinho, Multifoco, 2011), um conto numa antologia sobre répteis cuspidores de fogo (Dragões, Draco, 2013) e um romance autobiográfico fantástico (A Guerra dos Criativos, independente, 2013), além de algumas obras virtuais na Amazon.

Atualmente se divide em pesquisas para projetos literários e coordenação editorial de um selo independente.

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Conto: Páginas Rubras (Alastair Dias)



Uma olhada no relógio de pulso e outro gole generoso no uísque servido pela empregada. A paciência o consome, atormenta-o. A visita ao amigo, naquela noite chuvosa, não era uma mera cortesia; havia uma urgência, uma séria e importante urgência.
O detetive conhece o anfitrião ausente desde a mocidade, quando ambos dividiam o quarto no campus da faculdade mineira. Ele fazia Direito e o outro, Letras. Ambos compartilhavam uma aula ou outra, estudavam algumas vezes juntos e se divertiam.
A amizade se estendeu quando concluíram os cursos e seguiram carreiras tão opostas. Um se tornara policial, almejando ser um investigador especializado em assassinatos em série; o outro acabara sendo um escritor de renome, autor de romances de aventuras e policiais.
Sempre que havia tempo o detetive visitava a casa do escritor. Ambos conversavam por horas sobre livros e crimes, falavam de Sherlock Holmes e Dupin, dois grandes detetives da literatura, e dos criminosos que o policial conseguia prender.
O autor, o ficcionista, que era um ávido leitor e um herdeiro de uma fortuna incalculável, entendia os meios dos assassinos e auxiliava o amigo, usando como base os personagens de seus livros. E muitas vezes as suas dicas eram valiosas.
E naquela noite o real e o literário se encontrariam uma vez mais. Parece que o destino cisma de uni-los e fazê-los se confrontar.
O tempo passa imensuravelmente devagar, obrigando o detetive a olhar o relógio a cada um ou dois minutos, ansioso. Por onde anda o autor?
Enquanto aguarda, seus olhos perdem-se na quantidade exorbitante de livros, jornais e revistas que há na biblioteca do amigo. Há tanta informação, tanto conhecimento, que levaria séculos para um homem ávido por saber ler tudo aquilo.
Por ser tão rico e possuir tempo para se dedicar a literatura, o escritor provavelmente já teria folheado todos aqueles exemplares e vislumbrado outra informação.
Tentando distrair a mente, o policial lembrou-se do amigo como um nerd, uma pessoa apaixonada por livros, o que apenas confirmava o motivo que o fizera recorrer a ele nesta noite.
Ele pensou num criminoso em particular, um desgraçado que há anos vinha matando animais, crianças, idosos, mendigos, homens e mulheres, sem ter um padrão definido, sem um ter um perfil determinado. Apenas matava aparentemente ao acaso.
Por meses, desde que recebera o caso, o investigador buscou pistas, todas nulas e inúteis, que nada revelavam: data de nascimento, número de letras, vogais ou consoantes, nada, nada!
Tudo parecia perdido, mas então a imagem do amigo escritor surgiu e permaneceu! Ele poderia ajudar!
E aqui está o homem da lei, na espera do literato.
Enquanto aguarda, seus olhos correm por um enorme volume numa outra mesa, quase discreto. Curioso, aproxima-se e lê o título Páginas Rubras em dourado sobre uma capa de couro negro.
Ele abre e depara-se com uma frase:
O sangue escreve a história de toda uma vida.
Estranho! Folhea um pouco. A surpresa: a primeira página revela uma foto em preto e branco, abaixo um nome em escarlate; na seguinte também outra foto e outro nome; e se repete em inúmeras outras. Dezenas de fotos e nomes de pessoas e animais.
Seu coração pulsa rápido, incontrolável. Lembra-se do amigo e de sua obsessão por livros; nunca admitira um rabisco, um simples rasgadinho; uma vez xingara uma namorada que se atreveu a amassar por acidente uma revista.
O policial folheia e lê os motivos de constarem os nomes e as fotos: todos envolvendo “crimes contra a literatura”.
Desesperado, ele continua folheando, os olhos arregalados. Termina, após centenas de páginas, numa foto de um homem conhecido demais: ele próprio.
Apavora-se. Procura se lembrar o motivo de ter seu nome ali, naquele livro macabro, naquela coleção de vítimas. O sangue gela. Recorda-se de queimar um livro muito velho, inútil, minutos antes de o escritor chegar a sua casa; ele vira alguma folha queimada!
Ele tenta se mover, mas sente uma dor. O nariz sangra, a cabeça dói, o corpo cai. O chá. O chá fora envenenado!
Caído no chão frio, o investigador vê o escritor aproximar-se e se curvar para ele segurando uma pena. Sente a ponta fina em sua narina. O literato se afasta, aproxima-se do manuscrito e escreve por alguns segundos. A seguir pega o volume aberto e fita a nova vítima, triste.
— Por quê? — pergunta o policial após reunir forças.
— Porque não posso parar de escrever meu livro — responde o outro, afastando-se.
E a morte recolhe outro personagem de um conto de letras de sangue, outro personagem para as malditas Páginas Rubras.

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