O PseudoAutor

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Baiano nascido numa tarde de julho de 1991. Agnóstico e hipster, estudante de História, apaixonado por simbologias, mitologias e animais pré-históricos.

Escreve amadoramente desde 2007; após alguns anos e quase trinta livros rascunhados, Alec publicou uma coletânea de histórias curtas (Zarak, o Monstrinho, Multifoco, 2011), um conto numa antologia sobre répteis cuspidores de fogo (Dragões, Draco, 2013) e um romance autobiográfico fantástico (A Guerra dos Criativos, independente, 2013), além de algumas obras virtuais na Amazon.

Atualmente se divide em pesquisas para projetos literários e coordenação editorial de um selo independente.

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Coragem [Alécio Silva]


Ele a olhou com olhos cansados. Mick Jagger cantava Hard Woman no aparelho de som. Uma taça de vinho vazia; outra, pela metade, com uma marquinha discreta de batom vermelho.
A sala de jantar era iluminada apenas pelas velas espalhadas, a pedido dela, em cantos estratégicos pelos empregados, que também fizeram o melhor cardápio possível para aquela noite; um trabalho inútil, já que, ao chegar, ele não notou os detalhes, como a boa safra do vinho que bebeu em goles demorados e cheios, uma, duas, três taças em menos de cinco minutos, ou como o salmão estava divinamente temperado com os ingredientes que tanto apreciava. O mais grave, contudo, foi não ter notado ela, que estava belíssima com aquele vestido que ganhara dele, meses antes, numa viagem que deveria ter sido inesquecível. Quando notou algo, os olhos tristonhos da namorada já estavam em lágrimas e suas mãos delicadas cobriam seu rosto frágil, manchado pela maquiagem tão cuidadosamente escolhida para aquela ocasião que se tornara frustrante.
Nem um nem outro saberia responder, se questionados, quando tudo aquilo desandou, quando um deixou de se importar tanto com o outro; talvez ela tenha começado, ao não perguntar mais como fora o dia estressante de trabalho; ou ele, ao ignorá-la para assistir as partidas de seu time de futebol favorito. Embora morassem juntos, uma decisão tomada poucas semanas depois do início do namoro, eram quase desconhecidos, duas pessoas que, ocasionalmente, cruzavam passos pela sala, quarto ou cozinha; dormiam juntos, faziam amor, mas faltavam algo, uma coisa que tiveram não há muito tempo.
— Eu... eu não sei mais o que fazer... — ela disse, soluçando, sem descobrir os olhos ou demonstrar interesse em encará-lo.
— Eu também não — replicou o namorado, enchendo a quarta taça, quase esvaziando a garrafa de vinho tinto, safra de 1945, ano que o mundo comemorou uma grande vitória, algo que, segundo a segundo, aquele casal estava aparentemente longe de conhecer o sabor.
O amor não era uma guerra, e sim um jogo; não era feita por perdedores e ganhadores para que funcionasse, mas por ambos os lados vencedores, triunfantes e felizes, brindando as alegrias e vitórias. Se ocorresse de um dos lados ficar infeliz, insatisfeito com aquele jogo de olhares, palavras, gestos e provocações, tudo se perdia e ficava complicado de se sustentar. Para o casal de namorados, entretanto, estava ainda pior: ela, que fora sempre sonhadora e romântica, que adorava mimar e ser mimada, estava amargurada, quase em desespero, afinal sentia que o perdia; e ele, apesar de aparentar certa frieza, que sempre fora amoroso e adorava as demonstrações de carinho dela, sentia-se carente de atenção e obrigado a se preencher com as futilidades da televisão. E assim o namoro se afundava num lamaçal de tristezas e lamentações, fadado a acabar logo.
— Eu tentei... juro por Deus... tentei fazer este jantar ser bom... mas tudo o que você fez foi secar essa maldita garrafa de vinho e nem me olhar direito! — ela explodiu, agora o fitando com aqueles lindos olhos carregados de uma dor que apenas o coração entenderia o significado.
— Desculpa, de verdade — as palavras saíram dos lábios dele de maneira tranquila, mas o tom de voz tremia, denunciando uma empatia ainda existente. — Eu só estou muito cansado... muito cansado de tudo, do trabalho, dos amigos, que só me procuram para pedir dinheiro, de você...
— De mim?!
Ele não queria ter dito aquilo; não queria iniciar uma briga, sendo que a última, semana passada, quase arruinou toda a fraca estrutura do relacionamento e o fizera perder alguns bons contatos no trabalho. Aliás, ali estava o fio condutor de toda sua vida: ela; se a namorada estivesse bem, era mais fácil fazer negociações, animar-se para convidá-la para festas e ter noites de amor; quando ela estava desanimada, tudo desabava em volta.
— Não de você, mas disso que você se transformou — respondeu, arfando e bebericando o vinho. — Não te reconheço mais como antes.
— Não me reconhece?! — esbravejou ela, levantando-se e batendo as mãos abertas na mesa, sacudindo um pouco os objetos devido à violência. — Não sou eu quem prefere ver aqueles programas idiotas a assistir um filme juntinhos! Nem sou eu quem detesta o jeito que deixa o sofá da sala, pois incomoda para jogar videogame!
— Mas é aquela que se preocupa tanto em me agradar e não nota que tudo o que preciso é que seja você mesma, afinal eu me apaixonei por quem você é e não pelo que poderia fazer.
Os dois se olharam; pareciam não namorados apaixonados, jovens que planejavam um futuro juntos, sonhavam com uma família e viagens pelo mundo; pareciam, na verdade, adversários num ringue, prontos para se socarem e sangrarem, até que um deles caísse ou desistisse do combate.
Mas ela estava mais cansada do que ele, frustrada por nada dar certo; e não queria mais ser o incômodo, aquela que atrapalhava sua vida. Controlou como pôde as emoções, o nervosismo que sentia.
— Eu te amo muito — falou, num gesto de derrota, andando devagar para fora da sala. Deteve os passos antes do limiar, voltando-se para ele, complementando: — Precisamos reconhecer que não somos um para o outro. Te falta agora a coragem que te sobrou naqueles dias após a noite de 14 de julho de 2012.
E se retirou, sem perceber como os olhos dele se arregalaram; aparentava ter desistido de tudo, talvez guardando suas coisas em malas e bolsas e saindo da casa ainda pela manhã, com aqueles lindos olhos cheios de lágrimas e o coração, tão grande para um corpo tão pequeno, batendo com tristeza, dando adeus a tudo o que acreditava ser valioso em sua vida.
A quarta taça estava vazia; ele olhava para o vazio, aquela ausência que seria quando a namorada partisse, saísse de sua vida. Não queria aquilo, não estava preparado para voltar para aquele estado de incertezas; e faltava-lhe a coragem para agarrar as rédeas e reassumir o controle. Então, num estalo de pensamento, compreendeu que ela sempre fora a corajosa no relacionamento, ainda que focando em coisas que ele considerava desnecessárias, e foi desanimando com a falta de incentivo... até ser quem agora era. Naquela noite, havia dado o último lampejo de coragem e falhado de novo; era a gota.
Levantou-se, enxugando as lágrimas, ciente do que deveria fazer; demorou para tomar aquela atitude. Encontrou-a dormindo na cama; parte das malas estavam arrumadas no canto, como previu que estariam, as portas dos armários abertas, peças de roupas pelo chão, a cama bagunçada: ela dormiu na metade da arrumação, exausta de tanto sofrimento e choro. Sem falar nada, sem qualquer medo, ele se deitou ao seu lado, abraçando-a bem forte, como há muito não fazia.
— Juro que terei aquela mesma coragem de antes — sussurrou, com a voz trêmula —, juro que nosso amor não vai morrer. E somos, sim, feitos um para o outro.
E ali ficou, até adormecer e encontrá-la num sonho que há semanas não tinha: aquela noite, 14 de julho, algum tempo antes, quando teve coragem parecida com aquela que recuperava ao tomar consciência que quase a perdeu por covardia.

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