O PseudoAutor

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Baiano nascido numa tarde de julho de 1991. Agnóstico e hipster, estudante de História, apaixonado por simbologias, mitologias e animais pré-históricos.

Escreve amadoramente desde 2007; após alguns anos e quase trinta livros rascunhados, Alec publicou uma coletânea de histórias curtas (Zarak, o Monstrinho, Multifoco, 2011), um conto numa antologia sobre répteis cuspidores de fogo (Dragões, Draco, 2013) e um romance autobiográfico fantástico (A Guerra dos Criativos, independente, 2013), além de algumas obras virtuais na Amazon.

Atualmente se divide em pesquisas para projetos literários e coordenação editorial de um selo independente.

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Conto: O Selo do Ogro (Alastair Dias)



O corpo fora arremessado para longe, contra um caminhão de pequeno porte que se sacudiu todo, quase tombando. Mal se chocou com o veículo, o homem, cujas vestes eram negras e os cabelos alvos e com mechas prateadas, fora agarrado e pressionado contra o asfalto, sob toneladas de pressão de uma mão enorme e que ora o socava, ora o apertava com força. Em seguida sentira o corpo voar rumo ao ponto de início da batalha, rolando como um boneco molengo, sem movimentos próprios. Inacreditavelmente, pôs-se de pé, o sangue escorrendo em abundância pelo rosto, o sorriso cínico inalterável.
— Boa merda de mago você é, Cardoso! — queixou-se, voltando para o homem que tentava conjurar alguma coisa na parede coberta de símbolos de um antigo prédio colonial. — Vai esperar o infeliz me devolver ao Inferno primeiro, é?
Cardoso não revidara. Sabia que o companheiro de luta aguentaria o tempo que fosse preciso. Um ogro como aquele não o venceria tão facilmente. E ainda assim, o monstro não era lá tão grande: apenas uns três e meio a quatro metros de altura. O matador daria conta dele; não havia com o que se preocupar.
O homem ferido se voltou para a besta a sua frente, que urrava ensandecida, amassando um carro com a força violenta dos punhos. Arfou. Odiava ogros, sobretudo aqueles que teimavam em não se extinguirem, sobrevivendo sob os Selos, como os demônios, até uma criança desavisada o trazer de volta. Se não fosse a dívida para com o amigo — além da tentadora quantia oferecida a ambos —, nem se daria ao trabalho de apanhar de uma criatura tão imbecil como aquela.
Sacou uma pistola negra e apontou para o pé da coisa, atirando. O tiro acertou o asfalto, a poucos centímetros do dedão do pé esquerdo, arrancando lascas e provocando faíscas.
— Não o acerte! — vociferou o mago, voltando-se para o atirador, entre o susto e a ira.
— Eu não o quis acertar, certo? E quer parar de parecer minha mãe e acabar logo com isso? — irritou-se o homem, lançando seu olhar prateado e glacial para o outro, demonstrando que sabia muito bem o que poderia ou não fazer naquele caso específico.
Enquanto Cardoso se voltava para o encantamento, o matador sentiu novamente o corpo ser levado ao alto e uma mão esbofeteá-lo com extrema força, lançando-o diretamente contra um monte de lixo. A dor foi imensa, mas o odor podre o fizera se preocupar em sair logo dali, ajeitando com a mão livre a sobrecapa preta. Como gostaria de matar logo aquela coisa e pôr fim àquela sessão nada agradável de espancamento gratuito. Cuspiu saliva misturada ao sangue, percebendo que perdera outra vez o dente canino direito.
— Merda! Ainda bem que não sou um vampiro — disse a si mesmo, tocando o indicador no espaço vazio.
Seu olhar se mantinha no mago, que principiava a reposicionar os signos do Selo. Nunca se interessara por conjurações, mesmo quando servia a Satanael. Aprendera uma coisa ou outra, o que achou básico e fundamental, como falar com espectros, ser poliglota, conhecer os segredos de destruição de todas as criaturas — aprendizado que lhe rendeu um feito invejável contra os filhos do Senhor do Inferno —, além de poder vislumbrar, quando necessário, o Véu.
Andou calmamente, mancando um pouco, rumo ao ogro, cantarolando uma cantiga de ninar. Trocou de arma, pegando uma de choque. Mudou a intensidade da descarga para a máxima.
— Ele disse para não matar — argumentou para si, convencendo-se —, não disse nada de não dar alguma para acalmar.
O monstro naquele momento balbuciava diante de uma loja de brinquedos.
— Ô coisinha linda! — gritou o caçador, provocativo e sarcástico. — Olha o que tenho para você!
Quando a criatura se virou, o corpo um pouco curvado, tudo o que viu foi o homem pular sobre ela e tocá-la com um objeto que descarregou uma potência elétrica de milhares de volts. Urrou ensurdecedoramente, agarrando o atacante pela cabeça e o lançando para longe, para cima de um carro já destruído.
— Anda logo com essa porra, Cardoso! — berrou o sujeito de longos cabelos alvos e prateados, sentando-se no destroço do que fora um automóvel.
O mago aumentou o tom de voz e o ritmo do cântico, adquirindo uma postura digna de sua sabedoria — que contrastava com sua calça jeans surrada, camisa de mangas longas e tênis —, movendo com os dedos os símbolos rúnicos pela parede do prédio, reposicionando-os de forma a criar o efeito oposto ao original, capturando outra vez a criatura que nela residia. Os gritos de reclamações do outro eram totalmente ignorados.
O ogro avançou contra o matador, com grande fúria, agarrando o que encontrasse pelo caminho e lançando para longe. Estava furioso demais com aquele homem. E o mataria se não fosse algo lhe puxando para a parede. Desesperou-se, tentando se agarrar a algo. Achou um poste, porém aquele sujeito incômodo surgiu e lhe aplicou outra descarga elétrica, fazendo-o soltar a haste. Mas não iria retornar para o abismo escuro sozinho; agarrou o homem com força.
Os dois foram arrastados para a parede, o monstro se desfazendo igual areia arrastada pelo vento de um deserto. O caçador tentou se livrar, obtendo pouco resultado no começo, mas logo obtendo êxito conforme o corpanzil da besta se reduzia a pó. Foi com certo espanto que viu surgir um corpo pequeno.
— Will, a criança! — exclamou Cardoso, demonstrando preocupação, apontando para o menino inconsciente que agora era visível.
O matador se deixou ser puxado com mais intensidade, tendo a chance de agarrar a criança. Em seguida esticou a mão para o mago, que a agarrou e o puxou para fora da espiral que terminava de sugar o monstro. Segundos depois ele ouviu o Selo sendo outra vez fechado. Olhou para o menino que salvara — e que acidentalmente libertara o ogro e teve seu corpo frágil tomado como hospedeiro.
— Tome-o! — exclamou o homem de cabelos brancos, estendendo o garoto ao mago.
A seguir foi até um carro preto, abrindo o porta-malas com certa violência. Pegou alguns objetos cilíndricos, reclamando alguma coisa sobre o monstro selado, o mago ruivo, o menino tolo e a humilhação que sofrera. Quando concluiu a montagem, carregou a arma e se voltou para o prédio velho e abandonado, gritando com ferocidade:
— Saia daí ou vai junto com esse ogro desgraçado para o Inferno!
Na manhã seguinte, enquanto uma criança dormia um pouco cansada, uma mãe aliviada pelo retorno do filho querido, trazido por dois homens, a quem pagara uma boa quantia como forma de gratidão, assistia assombrada a notícia do vandalismo no centro cultural da cidade, onde um prédio — que se tornaria patrimônio público — fora destruído por uma grande quantidade de explosivos.
— Com certeza algum idiota sem cultura — reclamou ela, pensando que o mundo estava mesmo perdido com gente daquele tipo.

Poesia: 10 de Setembro (Alécio Silva)



Minha alma sofre com a triste partida
Daquela que um dia foi para mim
Todo o motivo sincero de meu viver,
A quem entreguei meus sonhos a bel-prazer
E fiz juras de um amor que deixei morrer.

Meus olhos não mais a encontram junto a mim,
E estão completamente perdidos no horizonte
O qual um dia a viram partir,
E o choro que surgiu em mim a partir
De sua partida nunca mais me fez sorrir.

Meu coração tão infeliz sofre
Por ter quem eu amava ir para não mais voltar,
Não mais sentir sua pele tão delicada,
Ouvir a sua voz serena de fada,
Amargurando meu sono pela madrugada.

E aqui fiquei, enquanto a via indo,
Seguindo sua vida sem olhar para trás;
Hoje ela está ao lado de quem a faz feliz,
E eu, que a amei e tão bem a quis,
Esquecido fiquei, a alma com horrenda cicatriz.

Meus desenhos #1: Árvore e Lua



Não desenho muito bem, mas teve uma época em que eu era melhor. Fui aprendendo com uma colega, no longínquo ano de 2001. Era legal aprender lições sobre textura, sombra, perspectiva e tantas outras coisas com alguém com menos idade do que eu.

E fiz este desenho no começo deste ano que se encerra. Nem sei o motivo; tava sem fazer nada e resolvi desenhar; usei lápis comuns, desses que todo mundo usa e fui rabiscando prá lá e prá cá, uma borracha que perdi em algum lugar, em algum momento entre outubro e dezembro.

Lembro-me de estar triste, muito triste, e querer desabafar; então, olhei para uma árvore próxima e me pus a desenhar.

Acabou que fiz uma árvore sobre um monte de terra, sem folhas, morta, e atrás um luar cheio e próximo. Gostei do resultado final, gostei mesmo.