O PseudoAutor

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Baiano nascido numa tarde de julho de 1991. Agnóstico e hipster, estudante de História, apaixonado por simbologias, mitologias e animais pré-históricos.

Escreve amadoramente desde 2007; após alguns anos e quase trinta livros rascunhados, Alec publicou uma coletânea de histórias curtas (Zarak, o Monstrinho, Multifoco, 2011), um conto numa antologia sobre répteis cuspidores de fogo (Dragões, Draco, 2013) e um romance autobiográfico fantástico (A Guerra dos Criativos, independente, 2013), além de algumas obras virtuais na Amazon.

Atualmente se divide em pesquisas para projetos literários e coordenação editorial de um selo independente.

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Romance: O Cão Negro - Prólogo [pt. I] (Alastair Dias)

Vou postar apenas um ou dois capítulos do romance O Cão Negro, o qual venho me dedicando há algum tempo. Trata-se de uma trama com elementos gore e de horror, envolvendo maldições e assombrações.

Aviso logo que trata-se de um texto um pouco pesado aos mais fracos de estômago, embora me pareça até ingênuo, mas teve leitores que me xingaram.

Basicamente: cenas de tortura e estupro. Leiam por conta e risco.

Sinopse: Quando, em 1767, uma jovem camponesa é torturada e morta sob acusação de bruxaria, um espírito vingativo de um cão de pelos negros surge, vagando pelo mundo, através dos séculos, destruindo vidas e enlouquecendo quem cruzar seu caminho. Após gerações de vingança, mortes e loucuras, o Cão Negro se aproxima do ápice de seu complexo plano de justiça quando, em pleno século XXI, um caso surpreendente de licantropia amedronta algumas cidades do Oeste Baiano obriga a jovem e ambiciosa investigadora Paula a tentar desvendar os assassinatos. Logo ela descobre haver uma forte ligação nos ataques do Lobo e no aparecimento de Marcos, um homem misterioso que guarda consigo segredos perigosos e sombrios. Investigando o caso a fundo, recolhendo relatos e montando o quebra-cabeça mortal, a detetive verá sua vida envolvida por uma entidade sobrenatural capaz de grandes coisas quando determinada a cumprir sua vontade. Será Marcos a criatura misteriosa e cruel chamada de Lobo? Qual a forte ligação entre ele, Paula e o Cão Negro? Por que ora o Cão surge como um demônio impiedoso, capaz de feitos macabros, e ora como um guardião, capaz de gestos bondosos? Quais as consequências dos acontecimentos horrendos e inexplicáveis que rondam a todos? Descubra se atrevendo a acompanhar O Cão Negro, o romance de estreia de Alastair Dias, uma trama cheia de horror, suspense e adrenalina. Mas, cuidado, pois o Cão pode surgir e clamar por sua alma como parte de sua insaciável vingança! 


Em algum lugar entre Gévaudan e Vivarais, província de Languedoc, sul da França, 1767.

I

Os olhos lacrimejados, o pavor e o medo misturados a dor e ao cansaço. As lágrimas haviam se misturado ao sangue dos lábios ressecados e formado uma mistura homogênea salubre que escorria pelo queixo. O suor, também tão abundante quanto as lágrimas e o líquido da vida, fluíam impiedosamente, fazendo arder as feridas que insistiam em não cicatrizarem. E o pavor no olhar, que outrora fora alegre e esperançoso, nos olhos castanho-avermelhados de uma alma sabedora de seu fim.

Foram longos dias até aquela tarde.

Primeiro a despiram, passando as mãos em seus órgãos genitais, alisando, cutucando, vasculhando em seu corpo os sinais visíveis de seu crime. Não satisfeitos, os inquisidores se dedicaram a alguns minutos de diversão, o que constituía de examinar minuciosamente cada orifício, cada canto de seu corpo, introduzir os dedos em lugares e provocar dor. Violando-a indiscriminadamente. Aquele divertimento sádico era prazeroso para eles.

A seguir puseram-na numa cadeira, amarrando-a com violência e força nos braços e nas pernas da mesma, apertando até dilacerar um pouco a pele, provocando cortes que revelavam a carne branca e filetes de sangue. Ela gritou, o que fez com que seus torturadores rissem ou praguejassem; estes ainda a estapearam, acusando-a daquilo que tanto insistiam que confessasse. O assento estranhamente era pontiagudo, perfurando suas nádegas.

Um dos homens, alto e robusto, rosto severo e marcado por cicatrizes, foi até uma mesa e pegou uma pinça, retornando com um sorriso prazeroso, mostrando para sua vítima o equipamento. Queria que ela temesse e sofresse pelos seus pecados contra a Igreja e imaculada fé cristã; viera de tão longe para isso, somente para encontrar a Fera e se deparara com algo bem mais interessante.

Ele ordenou que um de seus ajudantes segurasse com firmeza o punho direito da acusada, sendo prontamente atendido. Em seguida encostou a ponta da pinça na unha do dedo minguinho, levando-a até a parte que se une a carne, prendendo-a entre o objeto. Com uma puxada brusca, arrancou parte da unha, fazendo a vítima gritar. Não satisfeito, pôs o equipamento no que restou e puxou para cima, agora provocando uma hemorragia ainda maior do que na primeira vez.

 Essa pequena e dolorosa cena se repetiu, com poucas variações, várias vezes, cessando quando não restou mais sequer um pedacinho de unha para ser arrancada, deixando os dedos da acusada cobertos de sangue e ferimentos horríveis.

O torturador acenou para um magricela ruivo, que entendeu que era a sua vez de brincar um pouco. Este foi para a mesa, procurando algo para ser usado. Demorou alguns instantes, pegando por fim um chicote pequeno, de correias de couro duro e com alguns espinhos. Bateu uma vez na mesa, para testar. Seria perfeito!

Próximo da vítima, ele roçou a haste do objeto de tortura nos seios firmes e pálidos, sem qualquer pudor. Passeou com aquilo pelos ombros, pescoço, nuca, costas, braços... De repente uma chicotada e um grito medonho, alto, o sangue descendo pelo ombro esquerdo, escorrendo pelas costas e parte do seio. Outra chicotada, quase no mesmo instante, e o braço também foi coberto de cortes e sangue. Mal a prisioneira se recuperou da segunda chibatada, mais duas seguidas foram dadas, esfolando ainda mais o ombro e o braço.
O homem magro virou-se para seu superior, que assentiu que ele continuasse.

Não usaria mais o chicote. Voltou para a mesa e pegou uma haste metálica com uma das extremidades de madeira. Caminhou até a lareira que ardia naquela sala cedida gentilmente para aquela finalidade, pondo a ponta afiada nas chamas. Enquanto o ferro aquecia, ele gritou para a pobre infeliz, perguntando acerca da Fera.

Claro que ela desconhecia qualquer coisa sobre o monstro, exceto aquilo que lhe era contado, aquilo que todos sabiam: que a criatura matara mais de sessenta pessoas, ferira outras oitenta, matara lobos e animais domésticos. O que mais se poderia saber, além disso? Corria o boato de ser um loup-garou, um monstro meio lupino, meio humano, fruto de pactos demoníacos.

Eles acreditavam mesmo que ela, uma pobre camponesa, sabia acerca de uma criatura infernal? Que havia algum contato entre ela e a besta?

O ferro estava avermelhado em alguns minutos. Era hora de marcar aquela pele pecaminosa!

O cheiro de carne queimada se espalhou pelo ambiente, acompanhado pelos gritos assustadores da acusada, que se contorcia na cadeira, tendo a carne das nádegas ainda mais ferida. As cordas roçaram seus punhos e tornozelos, agravando os ferimentos.

— Diga! — urrou o magricela, mostrando o ferro que acabara de ser retirado da lareira, o rubro intenso, o calor forte. — Cadê a Fera?

— Eu... eu... juro por Deus... que não sei — respondeu a interrogada, os lábios feridos pelas mordidas aplicadas na tentativa de sufocar um pouco a dor.

— Blasfêmia! — gritou o homem robusto. — Usas o nome do Bom Deus em vão! Arderás no Inferno, ao lado daquela Fera e de seu mestre Satã!

O corpo da camponesa estremecia, cansado, dolorido, machucado. Era tanta dor que parecia anestesiar. Nem sentiu com tanta intensidade as queimaduras. Desfaleceu.

Quando acordou, estava num quarto pequeno. Melhor, estava numa cela com uma cama de pedra, uns panos velhos, um balde com água, um pão meio duro e mofado, um prato com algo que mais lembrava o que se dava aos porcos. Nua. Suas roupas estavam jogadas num canto. Vestiu-se com dificuldade, os dedos inchados e doloridos, ensanguentados.

Rasgou um pedaço de um dos panos imundos, pegou uma caneca e lavou-o rapidamente; sentou-se no chão duro e sujo, cuidando de seus ferimentos com lentidão. Chorava baixinho, pensando em toda a humilhação que sofrera. Cada ferimento que tratava como lhe era possível, cada queimadura, corte, dilaceração e perfuração — que lhe dificultava sentar-se como antes —, tudo aquilo era uma forma de lhe mostrar o quão injusto era o mundo.

Lembrou-se de sua mãe, de seu pai e de sua irmã, os três mortos de forma misteriosa. Sobrevivera por sorte — ou milagre, como disseram muitos a ela, em momentos de consolo e conforto espiritual —, passando a viver no casebre, com um cão que era de seu pai, um bom mastim de pelos negros, porte majestoso, excelente galgo. Era um animal dócil com quem simpatizara, contudo perigoso a quem não lhe agradava.

Era jovem, vivendo praticamente sozinha no campo, não muito perto de uma pequena vila, quase perto da floresta onde muitos ataques da Fera ocorreram. Não temia tanto o animal monstruoso, afinal possuía uma confiança imensa em Ortros, o seu melhor amigo e protetor. Não pensava em se casar, nem mesmo com os filhos de alguns homens importantes da região, que mais queriam algum tipo de prazer do que algo sério com ela. Poucas vezes era vista na igreja, pois sempre se ocupava em afazeres para se manter; precisava trabalhar para garantir seus alimentos, suas vestimentas, suas necessidades; Deus entenderia isso, com certeza.

Embora órfã, era feliz. Não vivia reclamando da vida, como a maioria das pessoas. Tinha motivos para agradecer, mesmo que poucos vissem. Tinha uma crença diferente, apenas isso. Procurava ver sempre algo interessante e positivo em tudo o que lhe acontecia. Era algo simples, como respirar.

As crianças gostavam de sua companhia, pois era uma pessoa simpática, meiga, solidária, sempre gentil e alegre, contava histórias antigas, de povos que não existiam mais. Aquilo a fazia querida, até mesmo entre os adultos, que a viam como alguém que os filhos e irmãos mais novos poderiam permanecer próximos e sossegados.

Não era anormal ver também Ortros deitado, todo manhoso, como um gatinho, enquanto os meninos e meninas franceses coçavam a sua barriga, roçavam seus pelos negros e brilhantes. Ele abanava o rabo, sem qualquer sinal de ameaça.

Mas, tudo aquilo se fora por algum motivo. Agora todos a viam como uma ligação entre os ataques e a Fera, como a possível causadora ou cúmplice do que estava ocorrendo.

Sons baixinhos lhe chamaram a atenção. Vinham da janela.

Levantou-se com dificuldade, indo para lá. A noite estava alta, escura, sem lua, sem estrelas. Apenas o olhar atencioso do cão negro lá embaixo, metros abaixo da janela com grade.

— Oh, Ortros! — emocionou-se a camponesa.

O animal levantou-se, apoiando-se pelas patas traseiras, pondo as dianteiras na parede, ficando mais perto da dona, que conseguiu tocar os dedos feridos em sua cabeça grande. O mastim ainda lambeu sua mão, ganindo.

Talvez sob o efeito da pouca luz, ou ainda por pura imaginação, mas a prisioneira viu lágrimas brotarem dos olhos de Ortros.

As palavras sempre ficam (Desconhecido)

Há alguns anos, quando comprei uma revista sobre cultura egípcia, deparei-me com a mensagem abaixo. Hoje, por inúmeros motivos, recordei-me dela; e quero compartilhá-la com os amigos, leitores e seguidores.



Se me disseres que me amas, acreditarei.
Mas se me escreveres que me amas, 
Acreditarei ainda mais.

Se me falares de tua saudade entenderei,
Mas se me escreveres sobre ela, 
Eu a sentirei junto contigo.

Se a tristeza vier a te consumir e me contares, eu saberei.
Mas se a descreveres no papel,
O seu peso será menor.

... E assim são as palavras escritas:
Possuem um magnetismo especial,
Libertam, acalentam, invocam emoções.

Elas possuem a capacidade de,
Em poucos segundos, cruzar mares, saltar montanhas,
Atravessar desertos intocáveis.

Muitas vezes infelizmente perde-se o autor, 
Mas a mensagem sobrevive ao tempo,
Atravessando séculos e gerações.

Elas marcam um momento que será 
Eternamente revivido 
Por todos que a lerem.

Viva o amor com palavras e escritas.
Mate saudades, peça perdão,
Aproxime-se.
Alegre alguém, ofereça um simples “bom dia”.
Faça um carinho especial.

Use a palavra a todo instante,
Sua força é imensurável.

Lembre-se do poder das palavras.

Quem escreve constrói um castelo
E quem lê passa a habitá-lo.

Meme Tosco: Quem Sou de Verdade

Devido a muitos acharem que sou fake, fiz uma tirinha bem sem graça...
(A primeira foto é de Alastair.)


Conto: Pôr-do-Sol (Alécio Silva)


Fim de tarde.

O crepúsculo, a bela aquarela de cores quentes e rastros tímidos de tons frios, o sol parecendo ser engolido pelo horizonte oeste, pelas nuvens, que também se incendeiam.

Um pai de olhos emocionados, apaixonados.

As pupilas pareciam competir com o brilho do fim de tarde, do antes do pôr-do-sol, dos minutos derradeiros, aqueles que antecedem a noite. Era admiração, fascínio, encanto, esperança, sonho, amor... tudo num simples olhar.

Na mão direita o mais lindo — e o maior e mais caro — buquê que ele um dia comprou. Rosas. Vermelhas e brancas. União. Unidade. Dois formando um. Fitas róseas, laços tão bem elaborados e delicados. O aroma é agradável, muito tenro.

Perto das seis.

Fim de um dia de trabalho para angariar o sustento. Ou não. Depende muito do ponto de vista.

O coração ansioso, apreensivo, na espera. A saudade é grande. A vontade desesperadora de revê-la, de abraçá-la, de beijá-la. O sonho de um acordado, de um jovem tolo, de alguém que ama.

O sol agora toca mais da metade do corpo no oeste, sendo um semicírculo, um semirredondo. Parece velho, parece semimorto. Ou parece apenas sentir pena de alguém, talvez daquele jovem idiota.

O pé esquerdo batendo firme e ritmicamente no chão, na grama castigada por outros pés nervosos ou inquietos. Uma rápida poeira se levanta, quase imperceptível.

No leste vêm as cores frias, a noite com seu manto negro e com as poucas estrelas tão corajosas a ponto de visitarem uma cidade tão sem graça.

Uma figura conhecida se aproxima. Senta-se ao lado do rapaz. Fala. Ouve. Replica. Consola. Lamenta. Levanta-se. E vai embora. Para sempre.

O sol também se foi.

A noite veio.

As rosas caem.

As pétalas se desprendem.

Os laços se desfazem.

Os nós se afrouxam.

Lágrimas descem, molhando o rosto do tolo enamorado.

É assim que tudo acaba.

É assim que tudo se finda.

É assim que tudo se conclui.

É assim que tudo termina.

É assim que tudo morre.

O rapaz parte.

Ele está triste, sozinho, morto... muito oposto ao que era antes do pôr-do-sol.

Mas, como é de se esperar, ninguém nota.

Conto: O Amor e Outras Leis (Alec Silva)


Eduardo olhou para a mulher que entrava no hospital, pensando na sorte que tinha por trabalhar em frente ao prédio em que ela medicava e no azar por ser apenas um vizinho de trabalho. A sua sorte estendia-se até um sorriso meigo, um “olá” angélica, um “bom dia” sincero, uma “boa tarde” inspiradora, uma “boa noite” amena, mas o seu azar estendia-se quando ele se lembrava de que teria que trabalhar, de que a jovem médica mal sabia o seu nome, de que raramente sobraria tempo para ambos se sentarem e conversarem.

O rapaz era tímido, limitado em atitude, mas romântico e sonhador a ponto de nutrir pela colega de vizinhança um amor inatingível, algo que comumente chama-se “amor platônico”, embora ele saiba que o termo soe errôneo ao verdadeiro significado da questão.

Eduardo sabia a data de aniversário de Sara, a médica, o alvo de seu amor incondicional; sabia o que ela gostava de comer, pois ambos faziam as refeições num mesmo restaurante, cada um numa mesa, ele observando-a e ela absorta em preocupações da profissão.

Se ele fosse um pouco mais corajoso, talvez como os caras que ora ou outra se atreviam a aproximar-se da jovem e pedir o número de seu telefone, talvez teria alguma chance. Mas, infelizmente, a verdade era óbvia: ele nunca conseguiria aproximar-se dela sem cometer uma gafe.

Quando tentou a primeira aproximação, tropeçou e bateu a testa no piso, derrubando a bandeja com tudo ― comida e suco ―, provocando olhares e risadas, o que o fez ficar semanas sem aparecer no restaurante.
Na segunda tentativa, ficou tão tonto que quase desmaiou e acabou falando besteira, sendo obrigado a se afastar da garota quase chorando de vergonha.

Após ambas as tentativas fracassadas, ele teve certeza de que se arrependeria menos se tivesse ficado na sua, sem tentar aproximar-se, embora também se arrependeria por não ter tentado.

O dilema de Eduardo cresceu ainda mais numa vez que foi ao banco. Lá encontrou Sara, que estava noutra fila, quase ao seu lado, numa fila maior do que a que ele estava. Se a dele, que era bem menor, tivesse sido mais rápida, o rapaz teria conseguido trocar algumas palavras com ela, porém a dela, que era bem maior, parecia muito mais rápida. Enquanto faltava duas pessoas para chegar a sua vez, Sara já tinha ido embora. E o pior foi aturar duas amigas cobiçando o marido de uma terceira e detonando os seus!

A esperança poderia ter retornado, é claro, entretanto a sua fagulha foi apagada num episódio que o fez se odiar.

Inicialmente, ele acompanhara um amigo ao hospital, pressentindo que teria ― ou poderia ter, nem ele sabia ― alguma chance de ver de perto a sua amada. Logo o amigo foi atendido, e ele ficou esperando, sempre buscando ver a médica, mas nada viu além de outros médicos, enfermeiros e doentes.

Quando ele levava o amigo para casa, este comentou sobre a médica que o atendeu: loira, olhos azuis, pele clara e sorriso meigo. Era a sua amada! E o amigo lhe passou a receita, que tinha rabiscado o telefone dela para eventuais consultas.

Assim que se viu só, Eduardo tentou ligar para ela, porém os números escritos a pressa eram bastante ilegíveis e sempre havia algum número de dupla interpretação, o que fazia a ligação ir para outra pessoa ― que não era Sara. E ao ter certeza de que ti9nha o número correto, só dava ocupado!

Furioso, jogou celular e papel no lixo.

Na manhã seguinte, ao procurar o aparelho, descobriu que a mãe havia posto o saco de lixo para fora e o caminhão já havia levado-o para o lixão. E lá se foi suas esperanças!

Era o destino que queria que os dois nunca pudessem ficar juntos por um minuto sequer. A verdade, apesar de dura, determinava que o rapaz nunca tivesse uma chance de se declarar para Sara.

Ele já se conformava com aquilo, com o amor platônico que o consumiria até lhe restar somente um cadáver. Seria limitado a vê-la em curtos ― breves, na verdade ― períodos e durante as refeições, a vê-la com outros homens, um namorado, um noivo, um marido ― e se lamentar por não ter sido ele ali.

Com tais pensamentos, ele atravessou a rua, sem perceber que o sinal abriria para os carros. Quando notou, voava para frente, sentindo o corpo doer e um líquido quente escorrer pela testa. E desmaiou.

Ao abrir os olhos, viu um anjo loiro, um olhar azul e sorriso meigo.

― Boa noite, Eduardo ― falou Sara, sempre encantadora. ― Você me deu um baita susto hoje. Fiquei preocupada, sabia?

Ele não sabia, por isso sorriu.

Seria um sonho?

Lutando contra o pensamento negativo de que tudo no fim dá errado, ele imaginou aquilo como um começo. Criou coragem e puxou conversa.

Naquele dia o rapaz teve certeza de que apenas uma Lei de Murphy era verdadeira: “Se alguma coisa deu certo, é porque algo deu errado.” Se não o fosse, nunca teria perdido o seu amor platônico e conquistado um amor correspondido.

Poema: Palavras Inexpressivas (Alec Silva)


Não creio que palavras sejam capazes
De expressar a dor que me arde o peito,
Que usurpa meu sono nas madrugadas frias;
Elas não podem resumir as vezes que penso em ti,
Os dias em que sinto aquela vontade de ouvir tua voz,
A alegria que é estar, por poucas horas, ao teu lado;
As palavras não podem sussurrar meus sentimentos,
Descrever com exatidão a ansiedade que é esperar
Aquele segundo que meu coração para
Quando tu apareces e tornas tudo mais bonito.

Nenhuma palavra no mundo possui a força
Das batidas de meu coração quando estás perto,
Ou quando me permites ficar um pouco mais;
Elas não conseguem mostrar a ti como fico
Quando tu dizes que precisa ir, pois é tarde,
E eu volto ao meu mundo de sombras e saudades.

Mas, ainda assim, cá estou, escrevendo versos tolos,
Tentando por meio de palavras mais tolas
Que tu representas o sentido de minha vida
E que não existe felicidade sem ti.

Conto: Entre Gigantes (Alec Silva)

Os olhos castanhos fitaram o oponente. Foi um olhar analítico o suficiente para deduzir os pontos fracos e fortes, altura, peso e força. A seguir se moveu agilmente para o lado, desviando-se da clava que se chocou com o chão, levantando poeira; aproveitou o impulso e empunhou a espada, roçando a sua ponta no solo arenoso, e usando a arma como apoio. Recuperou-se imediatamente da manobra evasiva e desferiu um golpe na coxa esquerda do adversário, forçando-o a curvar o corpo. Outro movimento preciso e a lâmina atravessou a garganta do inimigo, findando o confronto.
Enquanto o gigante se debatia, tentando conter a hemorragia, e vomitava sangue, a guerreira ergueu o olhar, agradecendo aos deuses pela vitória obtida. O metal ainda reluzia e gotejava o líquido rubro e precioso de sua vítima. Ela andou calmamente para perto de seu cavalo, a guarda um pouco desprotegida. Não havia sido uma luta muito difícil, contudo lutar com gigantes sempre era cansativo, pois lhe obrigava a manejar a Nykh com mais energia vital do que o comumente exigido.
Aquele princípio de manhã tinha o vento ameno e os ares estranhamente densos, típicos de perigos iminentes.
A viajante solitária pegou um trapo para limpar a espada quando um urro alto cortou o ar, ecoando pelo desfiladeiro. Ela se virou para trás e viu uma criatura de estatura descomunal sair das trevas de uma caverna, portando duas foices enormes e de corte enferrujado ― nem por isso letais ―, ora ou outra roçando a ponta de uma delas no chão, enquanto avançava em passos largos e firmes, sem pressa.
O novo oponente correu o olhar avermelhado para o parente morto, jazido numa poça de sangue, resmungando. Voltou-se para a assassina, vociferando:
― Como ousa matar meu irmão, meu único irmão? Pagará com o mesmo valor, desgraçada!
A guerreira arfou, afastando-se do cavalo. Não queria pô-lo em risco num combate. E começava a se arrepender por ter resolvido aquele atalho.
― Ele me atacou primeiro! ― gritou ela, ciente de que se justificar seria em vão. ― Apenas me defendi!
― Dane-se! Ninguém fere um irmão de um nefilin e fica impune!
O gigante bateu ambas as foices uma na outra, produzindo sons irritantes e algumas míseras faíscas. Rangeu os dentes e urrou, encarando aquela humana de cabelos loiros e ondulados, pele branca, em contraste com a armadura enegrecida que usava, e aparência tão serena. Não acreditava que seu irmão tivesse sucumbido sob a lâmina de alguém tão inferior quanto um ser humano ― e ainda mais sendo uma fêmea! Era inaceitável para seu orgulho.
Ele aumentou o ritmo de suas passadas bruscamente, jogando os braços para frente, causando estragos no ponto em que a mulher estava há pouco. Não se deixou ser vencido pelo mesmo truque que derrubara o irmão; girou o corpo rapidamente, desferindo um tapa que acertou o ombro esquerdo da guerreira, lançando-a a metros de distância.
A queda fora violenta, fazendo a viajante gemer de dor. Tentou se levantar, mas sentiu um peso insuportavelmente dolorido no ombro, voltando a cair. Ouvia os passos calmos e potentes do nefilin se aproximando, os metais enferrujados se chocando. Precisava pensar logo ou o seu destino seria ser estraçalhada por um indivíduo da raça desprezível de gigantes de pele alva e ascendência humana e demoníaca. Pelo menos tinha a poderosa Nykh em punho...
Quando o inimigo colossal tentou lhe perfurar a cabeça, ela se desviou como pôde e conseguiu decepar a mão direita do maldito, que praguejou e se afastou instintivamente, contendo o sangramento que jorrava em grande abundância da ferida recente.
A mulher aproveitou a oportunidade, arrastando-se um pouco e se pondo em pé com dificuldade, tendo a espada como auxílio. O ombro doía terrivelmente, alertando sobre o deslocamento de algum osso ― ou vários deles. Não deveria ter ousado repetir a mesma façanha num mesmo dia.
O nefilin a atacou novamente, com a arma que ainda lhe restava, num movimento que almejava a sua cabeça; o outro braço sangrava em abundância, espirrando para todos os lados, molhando o solo e a sua adversária.
A guerreira se abaixou um pouco, livrando-se de perder a cabeça, porém sentindo a lâmina da arma fazer um movimento no ar. Tentou desferir um ataque no punho do inimigo, sem obter êxito algum, quase caindo.
O monstro chutou o ar, almejando o corpo da humana que tanto o humilhava. Não obteve resultado positivo; apenas um ferimento mortal que lhe cortou os ligamentos do joelho, obrigando-o a se curvar, quase engatilhar.
Reunindo forças, mas contente com o golpe bem sucedido, a mulher o escalou, ficando sobre suas costas, e cravou a lâmina da Nykh na nuca dele, introduzindo-a até quase enterrar o cabo, atingindo o cérebro, derrotando-o. Nem teve pressa de sair dali, afinal tanto movimento e tanta energia usada no combate haviam piorado a situação de seu ombro; agora sentia todo o corpo dolorido, incapacitado de se mover.
Permaneceu sentada sobre o cadáver do oponente vencido por horas, suportando o sol escaldante, o odor putrefato exalado pelo corpo morto devido ao calor, a sede, a fome, o suor a arder as feridas... Não eram aquelas coisas que a venceriam.
Lembrou-se dos anos de treinamento, em terras distantes, dos castigos sofridos para aprender a ter disciplina. Não tivera aquilo que se conhecia como infância ou adolescência, tudo em nome de motivos aos quais pouco se orgulhava. Havia aprendido a arte de matar com grande destaque, de todas as formas, de espadas a adagas, de paralisantes a venenos letais. Tornara-se uma assassina perfeita, uma guerreira dotada de beleza e agilidade.
Quando percebera que seria capaz de se mover, levantou-se, desenterrando a lâmina da Nykh do crânio do cadáver; o suor escorria pelo rosto e pelo busto; na verdade, todo o corpo estava molhado e pegajoso. O ombro ainda doía, contudo um bom curandeiro logo daria jeito naquilo mediante uma quantia generosa. Poderia cavalgar normalmente, desde que o cavalo fosse num trote sossegado.
Caminhou até sua montaria, que se recostara sob uma sombra, aguardando a sua amazona. Pegou o cantil e tomou um gole demorado; a seguir pegou um pano velho e limpou a espada, usando um pouco de água e areia para ajudar a tirar os vestígios de sangue e miolos. Quando a limpou, guardou-a na bainha presa às costas e montou o animal, que já estava pronto para retornar a viagem.
O restante da jornada fora tranquila.
Parara apenas quando passara perto de um rio de águas cristalinas. Descera do cavalo e despira-se, cuidando de manter algumas adagas e a espada perto da margem, ao seu alcance. Lavou-se demoradamente, livrando-se do sangue e do suor, das impurezas daquela manhã tão intensa. O ombro esquerdo estava inchado e com coloração arroxeada, mas era um hematoma como tantos outros.
Vestiu-se com uma túnica leve e esvoaçante, sentou-se numa enorme pedra marginal e comeu algumas frutas, pães e bolos trazidos da última vila que estivera. Bebeu um pouco de vinho diluído à água, sem pressa. Deu algumas frutas ao cavalo, que pastava ali perto. Por fim, encheu os cantis.
Contemplou-se no reflexo aquático: uma mulher ainda jovem, serena, com um olhar cheio de brilho, contudo entristecido, lábios médios, que às vezes ostentava um sorriso enigmático, e pele branca. Seria facilmente confundida com uma filha de algum nobre ― talvez até com uma princesa ―, entretanto era uma forasteira, uma andarilha em busca de justiça e vingança, uma bela assassina de cabelos dourados.
Era, para quem conhecia a sua reputação, a senhora da espada com lâmina forjada com metal vindo do céu, sangue de dragões e lágrimas de elfos. Ou simplesmente Vannora.

NOTA: Personagem inspirada em Verônica S. Freitas. 

Poema: Versos #6 (Alec Silva)


Mas, não notaste, pois estavas ocupada,
As grandes mudanças que fiz foram por ti,
Mas, não notaste, pois estavas ocupada,
Desviando os teus olhos de mim.