O PseudoAutor

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Baiano nascido numa tarde de julho de 1991. Agnóstico e hipster, estudante de História, apaixonado por simbologias, mitologias e animais pré-históricos.

Escreve amadoramente desde 2007; após alguns anos e quase trinta livros rascunhados, Alec publicou uma coletânea de histórias curtas (Zarak, o Monstrinho, Multifoco, 2011), um conto numa antologia sobre répteis cuspidores de fogo (Dragões, Draco, 2013) e um romance autobiográfico fantástico (A Guerra dos Criativos, independente, 2013), além de algumas obras virtuais na Amazon.

Atualmente se divide em pesquisas para projetos literários e coordenação editorial de um selo independente.

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Conto: O Amor e Outras Leis (Alec Silva)


Eduardo olhou para a mulher que entrava no hospital, pensando na sorte que tinha por trabalhar em frente ao prédio em que ela medicava e no azar por ser apenas um vizinho de trabalho. A sua sorte estendia-se até um sorriso meigo, um “olá” angélica, um “bom dia” sincero, uma “boa tarde” inspiradora, uma “boa noite” amena, mas o seu azar estendia-se quando ele se lembrava de que teria que trabalhar, de que a jovem médica mal sabia o seu nome, de que raramente sobraria tempo para ambos se sentarem e conversarem.

O rapaz era tímido, limitado em atitude, mas romântico e sonhador a ponto de nutrir pela colega de vizinhança um amor inatingível, algo que comumente chama-se “amor platônico”, embora ele saiba que o termo soe errôneo ao verdadeiro significado da questão.

Eduardo sabia a data de aniversário de Sara, a médica, o alvo de seu amor incondicional; sabia o que ela gostava de comer, pois ambos faziam as refeições num mesmo restaurante, cada um numa mesa, ele observando-a e ela absorta em preocupações da profissão.

Se ele fosse um pouco mais corajoso, talvez como os caras que ora ou outra se atreviam a aproximar-se da jovem e pedir o número de seu telefone, talvez teria alguma chance. Mas, infelizmente, a verdade era óbvia: ele nunca conseguiria aproximar-se dela sem cometer uma gafe.

Quando tentou a primeira aproximação, tropeçou e bateu a testa no piso, derrubando a bandeja com tudo ― comida e suco ―, provocando olhares e risadas, o que o fez ficar semanas sem aparecer no restaurante.
Na segunda tentativa, ficou tão tonto que quase desmaiou e acabou falando besteira, sendo obrigado a se afastar da garota quase chorando de vergonha.

Após ambas as tentativas fracassadas, ele teve certeza de que se arrependeria menos se tivesse ficado na sua, sem tentar aproximar-se, embora também se arrependeria por não ter tentado.

O dilema de Eduardo cresceu ainda mais numa vez que foi ao banco. Lá encontrou Sara, que estava noutra fila, quase ao seu lado, numa fila maior do que a que ele estava. Se a dele, que era bem menor, tivesse sido mais rápida, o rapaz teria conseguido trocar algumas palavras com ela, porém a dela, que era bem maior, parecia muito mais rápida. Enquanto faltava duas pessoas para chegar a sua vez, Sara já tinha ido embora. E o pior foi aturar duas amigas cobiçando o marido de uma terceira e detonando os seus!

A esperança poderia ter retornado, é claro, entretanto a sua fagulha foi apagada num episódio que o fez se odiar.

Inicialmente, ele acompanhara um amigo ao hospital, pressentindo que teria ― ou poderia ter, nem ele sabia ― alguma chance de ver de perto a sua amada. Logo o amigo foi atendido, e ele ficou esperando, sempre buscando ver a médica, mas nada viu além de outros médicos, enfermeiros e doentes.

Quando ele levava o amigo para casa, este comentou sobre a médica que o atendeu: loira, olhos azuis, pele clara e sorriso meigo. Era a sua amada! E o amigo lhe passou a receita, que tinha rabiscado o telefone dela para eventuais consultas.

Assim que se viu só, Eduardo tentou ligar para ela, porém os números escritos a pressa eram bastante ilegíveis e sempre havia algum número de dupla interpretação, o que fazia a ligação ir para outra pessoa ― que não era Sara. E ao ter certeza de que ti9nha o número correto, só dava ocupado!

Furioso, jogou celular e papel no lixo.

Na manhã seguinte, ao procurar o aparelho, descobriu que a mãe havia posto o saco de lixo para fora e o caminhão já havia levado-o para o lixão. E lá se foi suas esperanças!

Era o destino que queria que os dois nunca pudessem ficar juntos por um minuto sequer. A verdade, apesar de dura, determinava que o rapaz nunca tivesse uma chance de se declarar para Sara.

Ele já se conformava com aquilo, com o amor platônico que o consumiria até lhe restar somente um cadáver. Seria limitado a vê-la em curtos ― breves, na verdade ― períodos e durante as refeições, a vê-la com outros homens, um namorado, um noivo, um marido ― e se lamentar por não ter sido ele ali.

Com tais pensamentos, ele atravessou a rua, sem perceber que o sinal abriria para os carros. Quando notou, voava para frente, sentindo o corpo doer e um líquido quente escorrer pela testa. E desmaiou.

Ao abrir os olhos, viu um anjo loiro, um olhar azul e sorriso meigo.

― Boa noite, Eduardo ― falou Sara, sempre encantadora. ― Você me deu um baita susto hoje. Fiquei preocupada, sabia?

Ele não sabia, por isso sorriu.

Seria um sonho?

Lutando contra o pensamento negativo de que tudo no fim dá errado, ele imaginou aquilo como um começo. Criou coragem e puxou conversa.

Naquele dia o rapaz teve certeza de que apenas uma Lei de Murphy era verdadeira: “Se alguma coisa deu certo, é porque algo deu errado.” Se não o fosse, nunca teria perdido o seu amor platônico e conquistado um amor correspondido.

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