O PseudoAutor

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Baiano nascido numa tarde de julho de 1991. Agnóstico e hipster, estudante de História, apaixonado por simbologias, mitologias e animais pré-históricos.

Escreve amadoramente desde 2007; após alguns anos e quase trinta livros rascunhados, Alec publicou uma coletânea de histórias curtas (Zarak, o Monstrinho, Multifoco, 2011), um conto numa antologia sobre répteis cuspidores de fogo (Dragões, Draco, 2013) e um romance autobiográfico fantástico (A Guerra dos Criativos, independente, 2013), além de algumas obras virtuais na Amazon.

Atualmente se divide em pesquisas para projetos literários e coordenação editorial de um selo independente.

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Romance: O Cão Negro - Prólogo [pt. I] (Alastair Dias)

Vou postar apenas um ou dois capítulos do romance O Cão Negro, o qual venho me dedicando há algum tempo. Trata-se de uma trama com elementos gore e de horror, envolvendo maldições e assombrações.

Aviso logo que trata-se de um texto um pouco pesado aos mais fracos de estômago, embora me pareça até ingênuo, mas teve leitores que me xingaram.

Basicamente: cenas de tortura e estupro. Leiam por conta e risco.

Sinopse: Quando, em 1767, uma jovem camponesa é torturada e morta sob acusação de bruxaria, um espírito vingativo de um cão de pelos negros surge, vagando pelo mundo, através dos séculos, destruindo vidas e enlouquecendo quem cruzar seu caminho. Após gerações de vingança, mortes e loucuras, o Cão Negro se aproxima do ápice de seu complexo plano de justiça quando, em pleno século XXI, um caso surpreendente de licantropia amedronta algumas cidades do Oeste Baiano obriga a jovem e ambiciosa investigadora Paula a tentar desvendar os assassinatos. Logo ela descobre haver uma forte ligação nos ataques do Lobo e no aparecimento de Marcos, um homem misterioso que guarda consigo segredos perigosos e sombrios. Investigando o caso a fundo, recolhendo relatos e montando o quebra-cabeça mortal, a detetive verá sua vida envolvida por uma entidade sobrenatural capaz de grandes coisas quando determinada a cumprir sua vontade. Será Marcos a criatura misteriosa e cruel chamada de Lobo? Qual a forte ligação entre ele, Paula e o Cão Negro? Por que ora o Cão surge como um demônio impiedoso, capaz de feitos macabros, e ora como um guardião, capaz de gestos bondosos? Quais as consequências dos acontecimentos horrendos e inexplicáveis que rondam a todos? Descubra se atrevendo a acompanhar O Cão Negro, o romance de estreia de Alastair Dias, uma trama cheia de horror, suspense e adrenalina. Mas, cuidado, pois o Cão pode surgir e clamar por sua alma como parte de sua insaciável vingança! 


Em algum lugar entre Gévaudan e Vivarais, província de Languedoc, sul da França, 1767.

I

Os olhos lacrimejados, o pavor e o medo misturados a dor e ao cansaço. As lágrimas haviam se misturado ao sangue dos lábios ressecados e formado uma mistura homogênea salubre que escorria pelo queixo. O suor, também tão abundante quanto as lágrimas e o líquido da vida, fluíam impiedosamente, fazendo arder as feridas que insistiam em não cicatrizarem. E o pavor no olhar, que outrora fora alegre e esperançoso, nos olhos castanho-avermelhados de uma alma sabedora de seu fim.

Foram longos dias até aquela tarde.

Primeiro a despiram, passando as mãos em seus órgãos genitais, alisando, cutucando, vasculhando em seu corpo os sinais visíveis de seu crime. Não satisfeitos, os inquisidores se dedicaram a alguns minutos de diversão, o que constituía de examinar minuciosamente cada orifício, cada canto de seu corpo, introduzir os dedos em lugares e provocar dor. Violando-a indiscriminadamente. Aquele divertimento sádico era prazeroso para eles.

A seguir puseram-na numa cadeira, amarrando-a com violência e força nos braços e nas pernas da mesma, apertando até dilacerar um pouco a pele, provocando cortes que revelavam a carne branca e filetes de sangue. Ela gritou, o que fez com que seus torturadores rissem ou praguejassem; estes ainda a estapearam, acusando-a daquilo que tanto insistiam que confessasse. O assento estranhamente era pontiagudo, perfurando suas nádegas.

Um dos homens, alto e robusto, rosto severo e marcado por cicatrizes, foi até uma mesa e pegou uma pinça, retornando com um sorriso prazeroso, mostrando para sua vítima o equipamento. Queria que ela temesse e sofresse pelos seus pecados contra a Igreja e imaculada fé cristã; viera de tão longe para isso, somente para encontrar a Fera e se deparara com algo bem mais interessante.

Ele ordenou que um de seus ajudantes segurasse com firmeza o punho direito da acusada, sendo prontamente atendido. Em seguida encostou a ponta da pinça na unha do dedo minguinho, levando-a até a parte que se une a carne, prendendo-a entre o objeto. Com uma puxada brusca, arrancou parte da unha, fazendo a vítima gritar. Não satisfeito, pôs o equipamento no que restou e puxou para cima, agora provocando uma hemorragia ainda maior do que na primeira vez.

 Essa pequena e dolorosa cena se repetiu, com poucas variações, várias vezes, cessando quando não restou mais sequer um pedacinho de unha para ser arrancada, deixando os dedos da acusada cobertos de sangue e ferimentos horríveis.

O torturador acenou para um magricela ruivo, que entendeu que era a sua vez de brincar um pouco. Este foi para a mesa, procurando algo para ser usado. Demorou alguns instantes, pegando por fim um chicote pequeno, de correias de couro duro e com alguns espinhos. Bateu uma vez na mesa, para testar. Seria perfeito!

Próximo da vítima, ele roçou a haste do objeto de tortura nos seios firmes e pálidos, sem qualquer pudor. Passeou com aquilo pelos ombros, pescoço, nuca, costas, braços... De repente uma chicotada e um grito medonho, alto, o sangue descendo pelo ombro esquerdo, escorrendo pelas costas e parte do seio. Outra chicotada, quase no mesmo instante, e o braço também foi coberto de cortes e sangue. Mal a prisioneira se recuperou da segunda chibatada, mais duas seguidas foram dadas, esfolando ainda mais o ombro e o braço.
O homem magro virou-se para seu superior, que assentiu que ele continuasse.

Não usaria mais o chicote. Voltou para a mesa e pegou uma haste metálica com uma das extremidades de madeira. Caminhou até a lareira que ardia naquela sala cedida gentilmente para aquela finalidade, pondo a ponta afiada nas chamas. Enquanto o ferro aquecia, ele gritou para a pobre infeliz, perguntando acerca da Fera.

Claro que ela desconhecia qualquer coisa sobre o monstro, exceto aquilo que lhe era contado, aquilo que todos sabiam: que a criatura matara mais de sessenta pessoas, ferira outras oitenta, matara lobos e animais domésticos. O que mais se poderia saber, além disso? Corria o boato de ser um loup-garou, um monstro meio lupino, meio humano, fruto de pactos demoníacos.

Eles acreditavam mesmo que ela, uma pobre camponesa, sabia acerca de uma criatura infernal? Que havia algum contato entre ela e a besta?

O ferro estava avermelhado em alguns minutos. Era hora de marcar aquela pele pecaminosa!

O cheiro de carne queimada se espalhou pelo ambiente, acompanhado pelos gritos assustadores da acusada, que se contorcia na cadeira, tendo a carne das nádegas ainda mais ferida. As cordas roçaram seus punhos e tornozelos, agravando os ferimentos.

— Diga! — urrou o magricela, mostrando o ferro que acabara de ser retirado da lareira, o rubro intenso, o calor forte. — Cadê a Fera?

— Eu... eu... juro por Deus... que não sei — respondeu a interrogada, os lábios feridos pelas mordidas aplicadas na tentativa de sufocar um pouco a dor.

— Blasfêmia! — gritou o homem robusto. — Usas o nome do Bom Deus em vão! Arderás no Inferno, ao lado daquela Fera e de seu mestre Satã!

O corpo da camponesa estremecia, cansado, dolorido, machucado. Era tanta dor que parecia anestesiar. Nem sentiu com tanta intensidade as queimaduras. Desfaleceu.

Quando acordou, estava num quarto pequeno. Melhor, estava numa cela com uma cama de pedra, uns panos velhos, um balde com água, um pão meio duro e mofado, um prato com algo que mais lembrava o que se dava aos porcos. Nua. Suas roupas estavam jogadas num canto. Vestiu-se com dificuldade, os dedos inchados e doloridos, ensanguentados.

Rasgou um pedaço de um dos panos imundos, pegou uma caneca e lavou-o rapidamente; sentou-se no chão duro e sujo, cuidando de seus ferimentos com lentidão. Chorava baixinho, pensando em toda a humilhação que sofrera. Cada ferimento que tratava como lhe era possível, cada queimadura, corte, dilaceração e perfuração — que lhe dificultava sentar-se como antes —, tudo aquilo era uma forma de lhe mostrar o quão injusto era o mundo.

Lembrou-se de sua mãe, de seu pai e de sua irmã, os três mortos de forma misteriosa. Sobrevivera por sorte — ou milagre, como disseram muitos a ela, em momentos de consolo e conforto espiritual —, passando a viver no casebre, com um cão que era de seu pai, um bom mastim de pelos negros, porte majestoso, excelente galgo. Era um animal dócil com quem simpatizara, contudo perigoso a quem não lhe agradava.

Era jovem, vivendo praticamente sozinha no campo, não muito perto de uma pequena vila, quase perto da floresta onde muitos ataques da Fera ocorreram. Não temia tanto o animal monstruoso, afinal possuía uma confiança imensa em Ortros, o seu melhor amigo e protetor. Não pensava em se casar, nem mesmo com os filhos de alguns homens importantes da região, que mais queriam algum tipo de prazer do que algo sério com ela. Poucas vezes era vista na igreja, pois sempre se ocupava em afazeres para se manter; precisava trabalhar para garantir seus alimentos, suas vestimentas, suas necessidades; Deus entenderia isso, com certeza.

Embora órfã, era feliz. Não vivia reclamando da vida, como a maioria das pessoas. Tinha motivos para agradecer, mesmo que poucos vissem. Tinha uma crença diferente, apenas isso. Procurava ver sempre algo interessante e positivo em tudo o que lhe acontecia. Era algo simples, como respirar.

As crianças gostavam de sua companhia, pois era uma pessoa simpática, meiga, solidária, sempre gentil e alegre, contava histórias antigas, de povos que não existiam mais. Aquilo a fazia querida, até mesmo entre os adultos, que a viam como alguém que os filhos e irmãos mais novos poderiam permanecer próximos e sossegados.

Não era anormal ver também Ortros deitado, todo manhoso, como um gatinho, enquanto os meninos e meninas franceses coçavam a sua barriga, roçavam seus pelos negros e brilhantes. Ele abanava o rabo, sem qualquer sinal de ameaça.

Mas, tudo aquilo se fora por algum motivo. Agora todos a viam como uma ligação entre os ataques e a Fera, como a possível causadora ou cúmplice do que estava ocorrendo.

Sons baixinhos lhe chamaram a atenção. Vinham da janela.

Levantou-se com dificuldade, indo para lá. A noite estava alta, escura, sem lua, sem estrelas. Apenas o olhar atencioso do cão negro lá embaixo, metros abaixo da janela com grade.

— Oh, Ortros! — emocionou-se a camponesa.

O animal levantou-se, apoiando-se pelas patas traseiras, pondo as dianteiras na parede, ficando mais perto da dona, que conseguiu tocar os dedos feridos em sua cabeça grande. O mastim ainda lambeu sua mão, ganindo.

Talvez sob o efeito da pouca luz, ou ainda por pura imaginação, mas a prisioneira viu lágrimas brotarem dos olhos de Ortros.

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