O PseudoAutor

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Baiano nascido numa tarde de julho de 1991. Agnóstico e hipster, estudante de História, apaixonado por simbologias, mitologias e animais pré-históricos.

Escreve amadoramente desde 2007; após alguns anos e quase trinta livros rascunhados, Alec publicou uma coletânea de histórias curtas (Zarak, o Monstrinho, Multifoco, 2011), um conto numa antologia sobre répteis cuspidores de fogo (Dragões, Draco, 2013) e um romance autobiográfico fantástico (A Guerra dos Criativos, independente, 2013), além de algumas obras virtuais na Amazon.

Atualmente se divide em pesquisas para projetos literários e coordenação editorial de um selo independente.

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PseudoDesenhando: Dia #1

Bem, resolvi praticar mais os desenhos (ruins) que faço para gastar o tempo em dias chuvosos e sem disposição para escrever. Não sou familiarizado com temáticas ou dotado de paciência para fazer círculos, triângulos e quadrados para, em seguida, convertê-los a formas de pessoas ou animais... gosto logo de fazer tudo de uma vez, meio no impulso.

Pois bem, resolvi começar com João Pestana, um personagem mítico (e similar ao Sandman) de Portugal. Pretendo usá-lo como personagem algum dia, em algum momento, em algum projeto... enfim...

Primeiro pensei num personagem indiferente (foda-se tudo, sou alheio a todos!), de olhar sempre distante e vazio, barba por fazer, estilo jovial e irresponsável, de alguém que poderia ter sido o rei dos sonhos, mas prefere viver (l)a vida (loca!) como bem entendesse.

Primeiros traços. Tentei definir o olhar distante e um cabelo atípico.
Tô bem aí para nada!
Olha minha cara de quem tá se importando!
As estapas seguintes foram retoques e acréscimos de detalhes, como cabeleira, barbicha, sombras e mudanças nos olhos tortos, um volume nos lábios... ficou razoável.

Para um teste de primeiro dia, ficou bonzinho, eu acho.
Usei vários tipos de lápis para realçar detalhes bobos e/ou importantes.
Scooby-Doo, onde está você, meu filho?
Até que curti fazer este protótipo de João Pestana, sabe?
Aqui eu mexi nos olhos e sobrancelhas...
Materiais usados para rabiscar este desenho...
Bem, é isso. Espero que o segundo dia de treinamento seja mais produtivo, com muitas repetições para aprimorar as carências. Vou tentar me dedicar a desenhar pessoas primeiro, depois investindo no restante. Até breve! 


Natal Amoral: Ho-ho-ho! [Alastair Dias]

Ainda em tempo, meu conto de Natal (aqui na Bahia não temos horário de verão... então...). Espero que curtam.

Durante todo o ano, Tommy se comportou de maneira exemplar. Ajudara a Sra. Campbell, a vizinha que ostentava mais gatos em sua casa do que todos os moradores da cidade eram capazes de criar; fizera todas as lições de casa, obtendo notas excepcionais; salvara um pobre cãozinho e iniciara uma campanha para que fosse adotado por uma família gentil, fato que lhe rendeu uma entrevista no jornal da região e uma menção honrosa entregue pelo próprio prefeito, um sujeito obeso e de índole questionável. Tornara-se naquele ano um orgulho para qualquer pai ou mãe e um exemplo digno de ser seguido. Por isso achou certo escrever ao Papai Noel uma carta, e pedir um presente à altura de tudo aquilo. Enviou-a com selos ganhados do Sr. Richardson, um velho simpático que amava tortas de maçã e nozes.

Dezembro passou como toda vez: com neve cobrindo a cidade, crianças fazendo bonecos esquisitos e promovendo guerras com bolas de neve, gente comprando árvores natalinas e enfeites coloridos e luminosos, filas intermináveis em lojas e supermercados, perus e porcos sendo abatidos, a velha e tradicional falsidade de final de ano... Para Tommy, todavia, era o presente trazido pelo velho de trajes vermelhos que importava. E nada mais. Ele havia se comportado e sido bonzinho por quase um ano, e era justíssimo que ganhasse o que tanto queria. Na verdade, era um dever, uma obrigação de o Bom Velhinho recompensá-lo.

E a noite da visita do Papai Noel chegou como uma luz guiando uma alma perdida. A expectativa fora tamanha que Tommy nem dormiu, alarmando-se quando o pesado trenó pousou no telhado, acompanhado pelo som dos guizos e dos cascos das renas saltitantes. O coração acelerou e a emoção o invadiu. Havia deixado leite e biscoitos amanteigados e com pedacinhos de chocolate próximos ao pinheiro enfeitado, junto a um cartão com a frase “Feliz Natal, Noel”.

Ele escutou os passos firmes no telhado, o descer de um corpo na chaminé. Alguém andando pela casa, primeiro na sala, mexendo aqui e ali, e depois subindo as escadas e caminhando pelo corredor. Espiou pela fresta da porta entreaberta, mas nada viu. Papai Noel sacudia os pequenos sinos e chocalhos, pisando firme e decidido; entrou no quarto dos pais de Tommy. O que ele queria ali?

Um silêncio se estendeu por incontáveis minutos até que o visitante efêmero voltasse a passear pelo corredor, agora arrastando o saco pesado. Deteve-se diante da porta do quarto de Tommy, coçando a barba alva e machada de sangue, sorrindo com seus dentes afiados e ensanguentados; cutucou-os um pouco, retirando o naco de carne preso. Encheu o peito e soltou um “Ho-ho-ho!” alegre, porém que causou arrepios no coração da criança. Concluída a visita, subiu pela chaminé e partiu.

Tommy se levantou da cama com pressa, afinal Papai Noel havia entrado em sua casa, e era certo que um presente fora deixado ali; saiu do quarto em disparada, descendo as escadas em segundos, esquecendo-se de se segurar no corrimão. Viu um grande embrulho ao lado do pinheiro; era uma caixa retangular, muito alta e larga, o suficiente para caber um homem bastante gordo. Afoito, rasgou o papel de seda com temas alegres e sinistros, encontrando em seu interior um bilhete grudado ao papelão amarelado. Na agonia de saber se seu pedido fora atendido, ignorou o que tivesse escrito ali. Precisava de uma faca para tirar o lacre e ter acesso ao conteúdo interno; correu para a cozinha, pegando uma faca usada para cortar carne; voltou descuidado, ansioso pelo presente.

Quando a ponta perfurou o lacre de fita carmesim, Tommy teve a nítida impressão de ouvir um grito abafado. Arregalou os olhos, afastando-se um pouco; notou gotas vermelhas brotarem do furo e escorrerem com suavidade pela caixa. Respirou fundo, imaginando que fosse parafina ou qualquer outra coisa do tipo; cravou a faca com força, rasgando o selo com um golpe apenas; era uma fita larga que passava verticalmente pelo caixote, impedindo que o conteúdo escapasse. Ao cortá-lo sem piedade, fez jorrar mais líquido vermelho, que espirrou nele com gosto. E era sangue!

Recuando com horror, largando a faca, os olhos de Tommy se petrificaram ao ver a mãe tombar perto de seus pés. O tórax fora arregaçado e espalhava vísceras, ácidos e toda variedade de líquidos e órgãos pelo piso; ela estava morta, assassinada pela ganância desmedida do filho. Um grito ensandecido ecoou pela casa, passando por aposentos vazios e um quarto com tripas e miolos distribuídos pela cama, onde, pouco antes, Papai Noel adentrou e devorou o pai, capturando a mãe e a selando na caixa maldita, deixando um bilhete de advertência.

Você realmente se acha um bom garoto, Tommy?

Se Tommy tivesse lido o recado antes de abrir o presente...

[Natal Amoral] Noite Feliz, por Valentina Silva Ferreira

A garota esperava sentada. Tinha uma postura demasiado nobre para a idade, os ombros muito direitos e as mãos magras colocadas, delicadamente, sobre a curvatura dos joelhos. Vestia saia e camisa, numa conjunção de cores que não fugia ao azul. Nas meias de lã coziam-se dois laçarotes nos tornozelos que, juntamente, com os sapatos de fivela trabalhada davam-lhe um ar de boneca. Os cabelos caíam direitos, curtos e lisos. A franja bem cortada roçava a ponta das longas pestanas. Dois grandes olhos azuis olhavam fixamente pela janela. Para lá dela, movimentava-se uma paisagem de neve e luzes natalinas. Uma neblina invernosa tornava as lamparinas fuscas como halos. Reinava o silêncio da meia-noite, rasgado, de repente, pelas batidas dos sinos da igreja. Batoques de garrafas explodiram nas paredes das casas vizinhas e gritinhos de crianças lembravam que, apesar das palavras recortadas de ano para ano, os presentes eram mesmo o melhor da festa. A menina continuava direita no canto da cama. No instante em que pestanejou, uma fileira de renas gordas deslizou pelos céus e caiu sobre a manta de neve. Um Pai Natal muito redondo e de barbas felizes saltou para fora do trenó e abriu o saco. Escolheu um enorme presente, embrulhado num papel colorido e chamativo. A menina desenhou um sorriso nos cantos da boca. Acompanhou os movimentos do Pai Natal a abrir a janela, a rebolar para dentro e a cair em cima das botas negras. Era a primeira vez que o via e o coração saltou dentro de si. O sorriso tímido dos seus lábios tornava-se cada vez mais expressivo. Finalmente, saltando de um pé para o outro num susto, o Pai Natal viu a menina, arregalada e de sorriso fácil. Suspirou. Estava aficar demasiado velho para aquele trabalho.

— Minha menina, não era suposto estares à minha espera.

A criança não disse nada. Permaneceu naquela postura quase de retrato, com os olhos presos no ancião.

— Não precisas ficar nervosa — disse, num tom calmo. — Toma o teu presente.

O braço esticou-se com o embrulho. A menina praticamente derreteu pela cama e caminhou até ao Pai Natal. O sorriso vinha cada vez mais aberto.

— Até podes existir… — disse, por fim, sem fechar a boca. — Mas não sabes mesmo quem se porta bem ou mal.

O corpo pequeno da criatura saltou para cima do homem. Foi aí que ele viu que aquele sorriso era uma miragem errada. Aquela boca escancarada desde que ele chegara era, simplesmente, um esgar de fome, de saliva na boca, de dentes caninos demasiado aguçados, de vontade de sangue. A menina ferrou os dentes na carne e arrancou pele e músculo, num som que aterrorizaria qualquer talhante. O sangue respingou, o cheiro a ferro colocou-se nos vidros, os gritos eram mordidos pelas galhofas de todas as casas do mundo. Em cócoras, a menina chupou o sangue e lambeu as mãos cobertas por bocados humanos. Depois sorriu — um sorriso verdadeiro de uma criança que acabara de receber o melhor presente do mundo.


Biografia
Valentina Silva Ferreira é escritora portuguesa, com contos apresentados em diversas antologias brasileiras, dentre as quais temos Le Monde Bizarre - O Circo dos Horrores Angelus - Histórias Fantásticas de Anjos. Publicou ainda dois livros, Distúrbio e A Morte é uma serial killer. Conheça mais no site oficial da autora ou a seguindo no Twitter.

[Especial] Natal Amoral

Cansado daqueles contos melosos e adocicados de Natal que todo ano aparecem aqui e ali, seja em filme ou livro, em blog ou novela? Se sim, sente-se aqui e vamos aproveitar uma ideia de última hora que tive para este ano.

Postei no meu perfil no Facebook a seguinte chamada:
Com isso, convidei quem quisesse a escrever um conto natalino diferente, o qual apelidei de Natal Amoral.

Pois bem, resolvi deixar esta postagem como rápida explicação e conservar aqui todos os textos que me forem apresentados até a data estipulada. Enfim, aproveitem as festas e boas leituras!

Contos Amorais

Você Pode Acreditar, de Don Ryu Dragoni
Noite Feliz, de Valentina Silva Ferreira
Ho-ho-ho!, de Alastair Dias

Microconto: Suspiro [Alec Silva]

A imagem ao lado é um oferecimento de Carlos Alberto de Nobréga. Saboreem com os olhos e apreciem o microconto de hoje.

Tatiana foi abraçada com força por Bruno, que detinha nos olhos aquela chama ardente de paixão insana. Arfou, com o corpo estremecendo naquela louca expectativa.

 — Vamos ficar juntos para sempre, meu amor — sussurrou ele, com a voz suave como a brisa do mar, arrepiando o pescoço da namorada. — Eu juro.

O som foi abafado. O sangue manchou os peitos de ambos. O último beijo apaixonado. Um sublime suspiro de amor de dois jovens cegos por promessas de sentimento eterno.

Microconto: Neumoultramicroscopicossilicovulcanoconióticos [Alec Silva]

O microconto de hoje é um oferecimento do insano que administra A Insanidade de Arzuld e do filho da mãe que inventou esta palavra difícil de pronunciar. Espero que curtam.

— Neumoultramicroscopicossilicovulcanoconióticos — respondeu o médico.

— Que diabos é isso, doutor? — retrucou o doente, como se aquela extensa palavra fosse um xingamento.

— Uma doença pulmonar causada pela inspiração de cinzas vulcânicas, meu rapaz.

— Poxa, doutor! — exclamou o homem, tossindo um pouco de sangue. — Poderia ter me dito logo o que era! Pensei que fosse algo mais grave!

O mais estranho: aquele homem nunca estivera perto de um vulcão enquanto fumava alguns maços de cigarros.

Coletâneas: Green Death

 Lobisomens são criaturas fascinantes, não?

Há os cruéis e viscerais, que derivam das lendas mais remotas; há os que tentam conviver pacificamente com humanos; há os que aceitam a licantropia como uma benção, enquanto outros veem nisso um fardo maldito que são obrigados a carregar.

Entre 2009 e 2010, se não me engano, conheci Alfer Medeiros, que estava buscando editora para um livro intitulado Fúria Lupina - Brasil. Naquela época, eu ainda tinha uma namorada (item raro em minha vida) e estava engatinhando no meio literário, tendo sonhos e ilusões. E o livro do Alfer foi a primeira obra de algumas obras escritas por amigos que pude ler.

Fúria Lupina - Brasil foi uma leitura tão fantástica que li duas vezes e escrevi um conto, Fúria Canina, o qual estreou um personagem inédito e visceral, cujo ódio por lobisomens foi explicado meses depois. Licurgo personificava a besta que os licantropos de Alfer controlavam dentro de si.

Quando veio o convite para participar de uma coletânea inspirada na organização ecoterrorista Green Death, vi a chance de explorar mais sobre o magnífico espécime criado. E nasceu o conto Um Cão Nunca Será um Lobo, que figura entre uma das histórias que mais curti escrever.

E em 2011 saiu o Green Death - Ecoterrorismo Licantrópico Vol. 0, contando com histórias de Amanda Reznor, Carolina Mancini, Celly Monteiro, Diego Alves, Gerson Balione, IAM Godoy, Marcelo Claro, Mariana Albuquerque, Rosana Raven, Susy Ramone, Tânia Souza e Alastair Dias, o heterônimo que aqui escreve.

O impressionante foi o sucesso que fez o personagem marginal que concebi. Tanto que, quase dois anos depois, tive de escrever um novo conto, ainda mais elaborado (foram três ou quatro tentativas até a versão final), Briga de Cachorro Grande.

O segundo volume do projeto do Alfer, Green Death - Ecoterrorismo Licantrópico Vol. 1 (título extenso!) saiu com contos de Adriana Alberti, Alastair Dias (sim, eu de novo, pois sou chato como pulga de galinha), Chico Pascoal, Douglas Eralldo, Franklin Lima, Leon Nunes, Verônica Freitas e Wellington Novaes.

Os dois livros (virtuais e gratuitos) estão recheados de lobisomens (e outras criaturas, assim como ocorrem nos livros da série que deu origem às spin-offs), sangue, tripas, emoções intensas e muita diversão, um prato cheio para quem ama o mito dos homens-lobos.

Para saber mais sobre os livros do Alfer Medeiros e baixar os e-books, basta clicar AQUI.

Literatura fantástica brasileira de qualidade, isso eu garanto.

Microconto: Escarlate [Alec Silva]

Outro microconto. Ficou mais ou menos. Meio subentendido. Espero que curtam.

Ana sabia que precisava colorir aquela parede branca sem graça. Primeiro ratos; depois pássaros, mas o alvo era irritante e predominante. O tom que escolhera era lindo para ser desprezado.

Usou ainda animais maiores: gatos, cães e patos, galinhas ao ter a chance, porém ainda não era o suficiente para concluir sua arte.

Ah, aquela vizinha que a espiava quando voltava de suas andanças em busca de tinta! A velha era pequena, mas tinha muita tinta de cor escarlate para pintar a parede antes branca.

Microconto: Noite [Alec Silva]

Certo, outro microconto. E não, hoje não está chovendo... ainda.

Era uma noite chuvosa. Dizem que péssimas histórias começam com chuva. É, dizem que sim. É ruim falar do tempo para se começar algo, mas, quer saber? Dane-se! Era uma noite chuvosa, sim.

Eu estava pensando em um começo melhor, mas me perdia contemplando a chuva cair, as gotas deslizarem pela vidraça.

Ah! Noites de chuva geralmente me inspiram, mas naquela noite, infelizmente, tudo o que escrevi foi que aquela era uma noite chuvosa. E, como sabem, é um péssimo jeito de começar uma história.

Microconto: Coração [Alec Silva]

Bem, gostei de brincar com microcontos... e saiu este hoje. Espero que apreciem.

Abri meu peito e mostrei meu coração para ela, dizendo palavras belas.

— Mas, Fábio, somos apenas amigos — ela replicou. — Você é meu melhor amigo, é como um irmão para mim. Sinto muito. Mesmo.

Ela era linda. Desde o sexto ano eu a amava. E nunca fui capaz de fazer o que fazia naquele momento.

— Preciso ir, amigo — completou ela, beijando minha testa. — Até mais!

Eu havia aberto meu peito. Iria entregar meu coração. Mas ela se foi. E eu morri com o coração ensanguentado entre meus dedos pálidos.

Microconto: Morte [Alec Silva]

Um pequeno texto que fiz há pouco, num momento de depressão e pensamentos avulsos. Espero que gostem.

— Algum arrependimento? — perguntou a Morte, fechando o livro que continha os nomes daqueles que visitaria ainda naquela noite.

— Alguns, talvez — replicou o velho, num suspiro curto e fraco. — Acho que de perder meu tempo contemplando o pôr-do-sol, das cartas de amor que deixei de escrever, dos sonhos que deixei de realizar, das palavras que sempre quis dizer, mas tive medo.

— Estranho — treplicou a Dama da Foice, ficando a face fria do falecido. — Você está morto a mais tempo do que pensei.