O PseudoAutor

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Baiano nascido numa tarde de julho de 1991. Agnóstico e hipster, estudante de História, apaixonado por simbologias, mitologias e animais pré-históricos.

Escreve amadoramente desde 2007; após alguns anos e quase trinta livros rascunhados, Alec publicou uma coletânea de histórias curtas (Zarak, o Monstrinho, Multifoco, 2011), um conto numa antologia sobre répteis cuspidores de fogo (Dragões, Draco, 2013) e um romance autobiográfico fantástico (A Guerra dos Criativos, independente, 2013), além de algumas obras virtuais na Amazon.

Atualmente se divide em pesquisas para projetos literários e coordenação editorial de um selo independente.

Visitas

Natal Amoral: Ho-ho-ho! [Alastair Dias]

Ainda em tempo, meu conto de Natal (aqui na Bahia não temos horário de verão... então...). Espero que curtam.

Durante todo o ano, Tommy se comportou de maneira exemplar. Ajudara a Sra. Campbell, a vizinha que ostentava mais gatos em sua casa do que todos os moradores da cidade eram capazes de criar; fizera todas as lições de casa, obtendo notas excepcionais; salvara um pobre cãozinho e iniciara uma campanha para que fosse adotado por uma família gentil, fato que lhe rendeu uma entrevista no jornal da região e uma menção honrosa entregue pelo próprio prefeito, um sujeito obeso e de índole questionável. Tornara-se naquele ano um orgulho para qualquer pai ou mãe e um exemplo digno de ser seguido. Por isso achou certo escrever ao Papai Noel uma carta, e pedir um presente à altura de tudo aquilo. Enviou-a com selos ganhados do Sr. Richardson, um velho simpático que amava tortas de maçã e nozes.

Dezembro passou como toda vez: com neve cobrindo a cidade, crianças fazendo bonecos esquisitos e promovendo guerras com bolas de neve, gente comprando árvores natalinas e enfeites coloridos e luminosos, filas intermináveis em lojas e supermercados, perus e porcos sendo abatidos, a velha e tradicional falsidade de final de ano... Para Tommy, todavia, era o presente trazido pelo velho de trajes vermelhos que importava. E nada mais. Ele havia se comportado e sido bonzinho por quase um ano, e era justíssimo que ganhasse o que tanto queria. Na verdade, era um dever, uma obrigação de o Bom Velhinho recompensá-lo.

E a noite da visita do Papai Noel chegou como uma luz guiando uma alma perdida. A expectativa fora tamanha que Tommy nem dormiu, alarmando-se quando o pesado trenó pousou no telhado, acompanhado pelo som dos guizos e dos cascos das renas saltitantes. O coração acelerou e a emoção o invadiu. Havia deixado leite e biscoitos amanteigados e com pedacinhos de chocolate próximos ao pinheiro enfeitado, junto a um cartão com a frase “Feliz Natal, Noel”.

Ele escutou os passos firmes no telhado, o descer de um corpo na chaminé. Alguém andando pela casa, primeiro na sala, mexendo aqui e ali, e depois subindo as escadas e caminhando pelo corredor. Espiou pela fresta da porta entreaberta, mas nada viu. Papai Noel sacudia os pequenos sinos e chocalhos, pisando firme e decidido; entrou no quarto dos pais de Tommy. O que ele queria ali?

Um silêncio se estendeu por incontáveis minutos até que o visitante efêmero voltasse a passear pelo corredor, agora arrastando o saco pesado. Deteve-se diante da porta do quarto de Tommy, coçando a barba alva e machada de sangue, sorrindo com seus dentes afiados e ensanguentados; cutucou-os um pouco, retirando o naco de carne preso. Encheu o peito e soltou um “Ho-ho-ho!” alegre, porém que causou arrepios no coração da criança. Concluída a visita, subiu pela chaminé e partiu.

Tommy se levantou da cama com pressa, afinal Papai Noel havia entrado em sua casa, e era certo que um presente fora deixado ali; saiu do quarto em disparada, descendo as escadas em segundos, esquecendo-se de se segurar no corrimão. Viu um grande embrulho ao lado do pinheiro; era uma caixa retangular, muito alta e larga, o suficiente para caber um homem bastante gordo. Afoito, rasgou o papel de seda com temas alegres e sinistros, encontrando em seu interior um bilhete grudado ao papelão amarelado. Na agonia de saber se seu pedido fora atendido, ignorou o que tivesse escrito ali. Precisava de uma faca para tirar o lacre e ter acesso ao conteúdo interno; correu para a cozinha, pegando uma faca usada para cortar carne; voltou descuidado, ansioso pelo presente.

Quando a ponta perfurou o lacre de fita carmesim, Tommy teve a nítida impressão de ouvir um grito abafado. Arregalou os olhos, afastando-se um pouco; notou gotas vermelhas brotarem do furo e escorrerem com suavidade pela caixa. Respirou fundo, imaginando que fosse parafina ou qualquer outra coisa do tipo; cravou a faca com força, rasgando o selo com um golpe apenas; era uma fita larga que passava verticalmente pelo caixote, impedindo que o conteúdo escapasse. Ao cortá-lo sem piedade, fez jorrar mais líquido vermelho, que espirrou nele com gosto. E era sangue!

Recuando com horror, largando a faca, os olhos de Tommy se petrificaram ao ver a mãe tombar perto de seus pés. O tórax fora arregaçado e espalhava vísceras, ácidos e toda variedade de líquidos e órgãos pelo piso; ela estava morta, assassinada pela ganância desmedida do filho. Um grito ensandecido ecoou pela casa, passando por aposentos vazios e um quarto com tripas e miolos distribuídos pela cama, onde, pouco antes, Papai Noel adentrou e devorou o pai, capturando a mãe e a selando na caixa maldita, deixando um bilhete de advertência.

Você realmente se acha um bom garoto, Tommy?

Se Tommy tivesse lido o recado antes de abrir o presente...

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