O PseudoAutor

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Baiano nascido numa tarde de julho de 1991. Agnóstico e hipster, estudante de História, apaixonado por simbologias, mitologias e animais pré-históricos.

Escreve amadoramente desde 2007; após alguns anos e quase trinta livros rascunhados, Alec publicou uma coletânea de histórias curtas (Zarak, o Monstrinho, Multifoco, 2011), um conto numa antologia sobre répteis cuspidores de fogo (Dragões, Draco, 2013) e um romance autobiográfico fantástico (A Guerra dos Criativos, independente, 2013), além de algumas obras virtuais na Amazon.

Atualmente se divide em pesquisas para projetos literários e coordenação editorial de um selo independente.

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[Natal Amoral] Noite Feliz, por Valentina Silva Ferreira

A garota esperava sentada. Tinha uma postura demasiado nobre para a idade, os ombros muito direitos e as mãos magras colocadas, delicadamente, sobre a curvatura dos joelhos. Vestia saia e camisa, numa conjunção de cores que não fugia ao azul. Nas meias de lã coziam-se dois laçarotes nos tornozelos que, juntamente, com os sapatos de fivela trabalhada davam-lhe um ar de boneca. Os cabelos caíam direitos, curtos e lisos. A franja bem cortada roçava a ponta das longas pestanas. Dois grandes olhos azuis olhavam fixamente pela janela. Para lá dela, movimentava-se uma paisagem de neve e luzes natalinas. Uma neblina invernosa tornava as lamparinas fuscas como halos. Reinava o silêncio da meia-noite, rasgado, de repente, pelas batidas dos sinos da igreja. Batoques de garrafas explodiram nas paredes das casas vizinhas e gritinhos de crianças lembravam que, apesar das palavras recortadas de ano para ano, os presentes eram mesmo o melhor da festa. A menina continuava direita no canto da cama. No instante em que pestanejou, uma fileira de renas gordas deslizou pelos céus e caiu sobre a manta de neve. Um Pai Natal muito redondo e de barbas felizes saltou para fora do trenó e abriu o saco. Escolheu um enorme presente, embrulhado num papel colorido e chamativo. A menina desenhou um sorriso nos cantos da boca. Acompanhou os movimentos do Pai Natal a abrir a janela, a rebolar para dentro e a cair em cima das botas negras. Era a primeira vez que o via e o coração saltou dentro de si. O sorriso tímido dos seus lábios tornava-se cada vez mais expressivo. Finalmente, saltando de um pé para o outro num susto, o Pai Natal viu a menina, arregalada e de sorriso fácil. Suspirou. Estava aficar demasiado velho para aquele trabalho.

— Minha menina, não era suposto estares à minha espera.

A criança não disse nada. Permaneceu naquela postura quase de retrato, com os olhos presos no ancião.

— Não precisas ficar nervosa — disse, num tom calmo. — Toma o teu presente.

O braço esticou-se com o embrulho. A menina praticamente derreteu pela cama e caminhou até ao Pai Natal. O sorriso vinha cada vez mais aberto.

— Até podes existir… — disse, por fim, sem fechar a boca. — Mas não sabes mesmo quem se porta bem ou mal.

O corpo pequeno da criatura saltou para cima do homem. Foi aí que ele viu que aquele sorriso era uma miragem errada. Aquela boca escancarada desde que ele chegara era, simplesmente, um esgar de fome, de saliva na boca, de dentes caninos demasiado aguçados, de vontade de sangue. A menina ferrou os dentes na carne e arrancou pele e músculo, num som que aterrorizaria qualquer talhante. O sangue respingou, o cheiro a ferro colocou-se nos vidros, os gritos eram mordidos pelas galhofas de todas as casas do mundo. Em cócoras, a menina chupou o sangue e lambeu as mãos cobertas por bocados humanos. Depois sorriu — um sorriso verdadeiro de uma criança que acabara de receber o melhor presente do mundo.


Biografia
Valentina Silva Ferreira é escritora portuguesa, com contos apresentados em diversas antologias brasileiras, dentre as quais temos Le Monde Bizarre - O Circo dos Horrores Angelus - Histórias Fantásticas de Anjos. Publicou ainda dois livros, Distúrbio e A Morte é uma serial killer. Conheça mais no site oficial da autora ou a seguindo no Twitter.

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