O PseudoAutor

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Baiano nascido numa tarde de julho de 1991. Agnóstico e hipster, estudante de História, apaixonado por simbologias, mitologias e animais pré-históricos.

Escreve amadoramente desde 2007; após alguns anos e quase trinta livros rascunhados, Alec publicou uma coletânea de histórias curtas (Zarak, o Monstrinho, Multifoco, 2011), um conto numa antologia sobre répteis cuspidores de fogo (Dragões, Draco, 2013) e um romance autobiográfico fantástico (A Guerra dos Criativos, independente, 2013), além de algumas obras virtuais na Amazon.

Atualmente se divide em pesquisas para projetos literários e coordenação editorial de um selo independente.

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A Morte da Criatividade na Literatura e o Uso Abusivo de "Referências"


Um estrangeiro é acolhida pelo povo rival, apaixona-se pela princesa, mas precisa enfrentar os antigos companheiros para viver essa paixão. Pocahontas? Danças com Lobos? Ou Avatar?

Dois amantes, de lados opostos, vivem um amor proibido, que vai de encontro a tudo aquilo que é um tabu. Romeu e Julieta? Ou Underworld (Anjos da Noite)?

Tanto o cinema quanto a literatura (apenas para me deter nos exemplos mais fáceis e lembrados durante esta postagem) vivem um processo de copia e cola, copia e recorta, cola e recorta de novo que chega a dificultar o verdadeiro das derivações.

Se The Matrix, por um lado, inovou numa trama que mesclava noir, cyberpunk, artes marciais, filosofia e aquele efeito "câmera lenta", de outro, fez referências a muita, muita coisa, do sensacional Mito da Caverna a Alice no País das Maravilhas, de O Fantasma do Futuro a conceitos budistas... Coincidentemente, na mesma época foi lançado o espetacular The Thirteenth Floor, com premissa similar, mas sem essa galera infinita de efeitos especiais e referências.

Lembro ainda de Repo Men, sobre agentes que são responsáveis em coletar órgãos quando o prazo para o pagamento de dívidas vence; intenso, violento e experimental, o final é quase uma cópia de Total Recall (o antigo).

Avatar, tão comentado na época de seu lançamento, é uma mistura de Pocahontas, Dança com Lobos, Tarzan e Uma Princesa de Marte (ambos do mesmo autor, Edgar Rice Burroughs, sendo que comprei a trilogia inicial das aventuras em Barsoom simplesmente porque amei o filme de Cameron), mas com exoesqueletos e uma mensagem "verde" (ou "azul"), salpicada com a Teoria de Gaia e conceitos de ciência bem mirabolante.

Mas, caro leitor, qual o limite exato entre copiar e referenciar, prestar uma homenagem? Há, de fato, liberdade criativa na hora de se pensar numa história e enchê-la de citações a obras de terceiros?

Quero tomar como bases meus livros e os de Raphael Draccon (quem me acompanha nas redes sociais sabe meu carinho pelas obras dele). Ficarei limitado apenas ao último livro que escrevi, O Cubo das Eras, e aos dois representantes das autobiografias que venho minunciosamente desenvolvendo, A Guerra dos Criativos e Colisão (o primeiro volume de uma série de cinco).

Ao que já li de Draccon e acompanho em resenhar e prosas em grupos literários, o grande forte dele é fazer as chamadas "referências" a séries, filmes, livros, games, músicas e qualquer coisa que faça o livro vender; sim, pois é um dos motivos de alguém torrar a paciência se gabando por inserir tanta coisa quando, a meu ver, o essencial é se contar uma história.

Enfim, em Cemitérios de Dragões, seu recente projeto, "uma fanfiction MA-RA-VI-LHO-SA", como tão bem definiu uma resenhista, o autor faz uso da temática dos supergrupos de soldados/jovens/guerreiros/humanos que recebem armaduras para combater o mal. Tanto que o nome da série, Legado Ranger, está aí para referenciar Power Rangers. Não bastasse isso, acrescenta Caverna do Dragão (li em algum lugar o paralelo entre os personagens desse desenho e os do livro dele!), Avatar (tanto o filme já mencionado quanto aquele desenho do Último Mestre de Ar), Harry Potter (?!), Jaspion, Changeman, Flashman, Black Kamen Rider, Naruto (hein?!), Thundercats (eita caray!), o novo filme dos X-Men (aquele com viagem no tempo), Star Wars, Matrix, Pokémon (oxe!)... [tudo aí catei tanto da sinopse quanto das resenhas.]

Das duas, uma: ou Draccon manja pra caramba de copiar ideias ou manja pra caramba de falta de criatividade. Porque assim: entendo perfeitamente que o clichê é algo que muitos evitam, que as boas ideias geralmente já foram usadas... Ser original é complicado demais, ainda mais para esta geração bombardeada de filmes, livros com fórmulas batidas e requentadas... Mas tenho certeza que a falta de originalidade não justifica a preguiça de ser criativo.

Lembro uma vez que um amigo veio até mim, dizendo que A Guerra era algo bastante original e tudo mais, que o lance dos Criativos (os personagens humanos que interagem num mundo de sonhos) usar a imaginação para criar coisas e se enfrentarem era bastante empolgante e nunca viu nada igual. Apenas respondi: "Yu-Gi-Oh!, Digimon e Pokémon". E arrisco assumir aqui que parte da trama cata referências de muitas coisas que vi, li e gostei, como postei uma vez noutro blog, mas em momento nenhum fiz uso disso para promover minha obra. Não fiz porque acredito que a história que me propus a contar é mais importante do que me gabar que faço referência a O Ataque dos Vermes Malditos, por exemplo.

O mesmo caso posso aplicar a Colisão, que possui muito simbolismo e conceitos de física quântica, mas optei mais pela fantasia e evitei usar a pseudociência para explicar os fenômenos. E é uma obra rica não apenas em símbolos cuidadosamente pesquisados, mas possui trilha sonora apresentada na primeira parte, e cada música conduz a revelações do enredo, tanto no primeiro volume quantos os seguintes. E muitas, muitas referências, mas nenhuma descaradamente citada; estão lá, desde Jurassic Park a uma passagem em que um personagem cita uma das "Leis Universais dos Animes", pouco depois de outro reclamar que um terceiro criou Charizards, afinal coisas assim possuem marcas registradas. Só por curiosidade, ainda cito bastante StarGate, A Chave do Tamanho e presto homenagem a muitos filmes e livros que me formaram como leitor e escritor. Num trecho determinado, uma singela homenagem a Mamonas Assassinas.

Já em O Cubo das Eras, há muitas referências e símbolos em curto espaço de tempo. O início é uma paráfrase de A Guerra dos Mundos, com um toque lovecraftiano; há citação de uns games ali, de The Evil Dead aqui, sátiras a filmes acolá, mas tudo no momento oportuno ou descarado... até que a trama fica mais dramática e tensa, e essas coisinhas ficam de lado.

Portanto, não sou hipócrita de criticar o Draccon por fazer essas ditas "referências", mas o critico por não conseguir escrever algo original ou criativo e usar essas citações do terceiro plano pra frente. É como uma fanfiction mesmo, sabe? Não há algo dele ali, algo que seja sustentado por si só; é como uma linda marionente que depende de cordas para se mover: um boneco lindinho, mas inútil sem essa sustentação.

Vi recentemente O Segredo da Cabana, um filme que satiriza inúmeros gêneros do horror, resultando em recortes de filmes até surpreender com um final instigante. Vejo os livros do Draccon assim, mas sem aquela graça na narrativa. É uma imitação, sabe? Coisas que funcionaram com outros e ele usa, sem aquela audácia típica de mentes criativas e inovadoras; se de um polo temos os irmãos que revolucionaram com The Matrix, de outro temos aquele que preferiu apenas copiar e fazer uma versão morna do original.

Se ao menos tivesse uma escrita atraente, compensaria a falta de criatividade em conduzir uma alma pro Inferno ou Sonhar (ou qualquer lugar que seja), enquanto copia a obra de Dante, envia anjos, demônios, deuses oníricos e usa o Sandman de Gaiman... e me fazendo querer desistir do livro nas primeiras 30 páginas.

O que quero dizer com tudo isso?

NÃO IMPORTA se sua ideia não é original, mas SEJA CRIATIVO! Sério! Quando comecei a elaborar as coisas para O Cubo das Eras, peguei como base Jumanji, Zathura e StarGate, mas fui criando identidade no amadurecimento das coisas, apresentando a jornada de três amigos para determinar o direito de sobrevivência ou extinção da raça humana. Não optei em desenvolver a trama em volta do objeto "mágico", como fiz na primeira versão, O Enigma do Cubo, que publiquei em 2011, numa coletânea.

Ao elaborar Colisão, fugi de muitas coisas, concentrei em pesquisas sobre os assuntos que queria abordar, consultei mapas, li sobre cada aspecto, esbocei cenas... e acho que criei algo superior a A Guerra dos Criativos, nem que seja um degrau. Eu poderia optar pelo mais fácil, mas estou trilhando uma jornada em cinco partes para contar uma aventura que mescla diversos assuntos.

Se querem escrever sobre um mundo distópico, pesquisem temas polêmicos, fujam da besteira de copiar Jogos Vorazes e similares! Leiam 1984 ou Admirável Mundo Novo! Ou serão apenas "mais um" no meio de um monte de merda! Eu, por exemplo, tenho uma ideia de distopia que mostra um mundo sem religião, mais ou menos como foi visto em Equilibrium, um excelente filme do Bale, que ficou meio ofuscado com o segundo filme da trilogia Matrix. O que vai garantir que a ideia seja criativa é minha abordagem, e tenha certeza que não será com uma protagonista dividida entre dois amores.

Como editor de um selo independente, estou lendo um livro de um dos autores que estou apostando algumas fichas. Questionei-o se ele havia pegado um conceito de Blade II ou Criatura Perfeita, pois achei um dos núcleos apresentados muito similar, o que ele negou, afinal nem tinha visto os filmes. Inconsciente coletivo? Talvez. Contudo, o diferencial é a abordagem criativa que ele optou dar ao tema já desgasto que é o vampirismo.

Copiar coisas dos outros (como Draccon fez ao manter o termo ranger aos guerreiros com armadura) é menosprezar a capacidade criativa, é zombar da inteligência do leitor; não precisa ser um termo novo, mas não é complicado brincar com palavras e elaborar algo mais decente (por que não usar o termo caçador ou emissário, por exemplo?). Fazendo isso, ou você cria uma fanfiction sem muita identidade ou está plagiando a obra de outro.

Ideias são livres. Eu usei uma que vi num filme de comédia sobre um jardim celeste (uma linda metáfora sobre como o materialismo pode ferrar com as coisas boas da vida); não foi mais do que um minuto a cena, na qual o protagonista, um ator decadente que fez sucesso quando criança, conta sobre o roteiro maravilhoso que recebeu após tantos anos fora do mercado. Foi o bastante para eu adaptar a ideia e escrever o elogiado O Jardim Celestial de Guilherme.

Mas, ao contrário de ideias, obras artísticas dos outros são propriedades intelectuais e qualquer alteração ou derivação sem autorização é crime e, principalmente, prova de mediocridade intelectual.