O PseudoAutor

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Baiano nascido numa tarde de julho de 1991. Agnóstico e hipster, estudante de História, apaixonado por simbologias, mitologias e animais pré-históricos.

Escreve amadoramente desde 2007; após alguns anos e quase trinta livros rascunhados, Alec publicou uma coletânea de histórias curtas (Zarak, o Monstrinho, Multifoco, 2011), um conto numa antologia sobre répteis cuspidores de fogo (Dragões, Draco, 2013) e um romance autobiográfico fantástico (A Guerra dos Criativos, independente, 2013), além de algumas obras virtuais na Amazon.

Atualmente se divide em pesquisas para projetos literários e coordenação editorial de um selo independente.

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A garota dos sonhos (ou A caótica teoria da vida)


Eu acordei com a lembrança de que em minha mão havia um número telefônico anotado: 99**-****. Por mais que quisesse tentar, não lembraria mais qual foi aqueles oito malditos dígitos. Durante o sonho, eu me esforcei muito, muito para decorar aquela combinação, aquela senha para algum grande prêmio.

Sem nome, sem rosto... e ainda assim a mais bela das garotas dos sonhos de um poeta ou escritor solitário... ela veio e me beijou. Talvez cheirasse a rosas frescas, ao aroma da sublime tentação, da juventude que a alma emana naturalmente, a marca de uma mulher que encanta.

Talvez aquela sequência única de algorismos me permitisse conhecer seu rosto, saber quem veio me digitar... e não supor que fosse uma súcubo, embora, se fosse tal criatura, deve ser uma das mais comportadas. Ou não seria essa jovem que me atenderia, e sim um homem ranzinza, que me xingaria de insultos inomináveis?

Fico pensando em quantos outros sonhos, momentos tão meigos como o de um breve sonho, deixei de vivenciar por me esquecer, por me privar de correr riscos. No final da madrugada, foi uma garota sem rosto e sem nome quem me beijou, que me cativou, mas não seria ela uma projeção de alguém real, que eu poderia ter encontrado pelas trilhas da vida?

Chamam isso de teoria do caos.

Seria mais ou menos assim: se eu tivesse acordado e anotado logo de cara o número de telefone, se tivesse ligado depois, saberia se o sonho foi premonitório ou só uma peça pregada por minha imaginação. Uma possibilidade que nunca será real... ao menos neste universo em que vivo, se você acredita em multiverso.

Para ser ainda mais claro, vejam O Curioso Caso de Benjamin Button. Aliás, no filme tem uma citação trágica sobre a nossa existência: “Às vezes, nós estamos numa rota de colisão e nem sequer sabemos. Seja sem querer ou de propósito, não há nada que possamos fazer".

E isso me leva a interpretar meu sonho.

Naquele dia, por algumas vezes, comentei com amigos sobre minha eterna busca pela musa definitiva, por aquela que será a inspiração, a paixão que se tornará amor, que deixará de ser um conceito para ser um objeto (no sentido platônico). Ainda cheguei a mencionar que todo mês tenho uma paixão diferente, seja real ou imaginária, pois sou como um mendigo e andarilho, escrevendo e procurando nas estradas aquilo que nem sei o que possa ser.

E ouvi Anathema. Sério, se você estiver deprimido, apaixonado, entristecido, solitário, decepcionado ou qualquer outro emocionado, não ouça Anathema. Melhor: sob qualquer motivo, não ouça Anathema. Mas eu não sigo isso. E fui dormir com Untouchable (ambas as partes, em ambas versões) na cabeça.

Se eu não tivesse comentado sobre minhas inspirações, se eu não tivesse falado para uma amiga sobre me apaixonar todos os meses por uma musa platônica, se eu não ouvisse Untouchable naquela noite, enquanto pensava na vida de merda que tenho, não teria sonhado com aquela garota misteriosa que me beijou e anotou o número de telefone em minha mão usando caneta Bic azul. Se eu não tivesse sonhado com ela, se não tivesse me apaixonado por sua aura desconhecida, este texto jamais teria sido escrito.

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